
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, manteve diante do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) o apoio do governo Donald Trump à imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros.
Rubio respondeu, em carta enviada na terça-feira (23) e obtida pelo Globo, a uma manifestação encaminhada por Flávio no início de junho. No documento, o senador disse que um novo tarifaço americano provocaria “sérios danos” à população brasileira e afirmou confiar em sua vitória na eleição presidencial de outubro.
A resposta também agradeceu o apoio de Flávio à decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Rubio, porém, não atendeu aos pontos apresentados pelo senador sobre as tarifas nem comentou as preocupações econômicas citadas por ele.
A movimentação ocorreu depois de Eduardo Bolsonaro (PL) pedir explicitamente a Trump tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, segundo a pauta. Ele também tentou relacionar a retirada das medidas a sanções contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) com base na Lei Magnitsky.

Rubio cita divergências comerciais e audiências públicas
Na carta, Rubio classificou como “generosa” a proposta de Flávio de criar uma equipe de transição conjunta entre Brasília e Washington caso ele vença a eleição. Em seguida, o secretário afirmou que as divergências comerciais permanecem: “O embaixador Jamieson Greer deixou claro que nós permanecemos com diferenças substanciais em relação à solução das irregularidades apontadas nesta investigação. São questões relacionadas ao comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais injustas, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e o desmatamento ilegal”.
Rubio disse ainda que o Departamento de Estado não conduz as investigações comerciais, atribuição do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), chefiado por Jamieson Greer. “Qualquer parte interessada no Brasil pode participar do período de consulta pública e da audiência aberta que o Escritório do Representante de Comércio dos EUA organizará em 6 de julho. A consulta ficará aberta até 1º de julho. Solicitações para participar da reunião deverão ser feitas até 22 de junho”, afirmou.
Rubio e Flávio se reuniram em Washington no fim de maio. Na ocasião, o senador divulgou fotografias do encontro e escreveu nas redes sociais: “Seguimos fortalecendo relações internacionais, defendendo a liberdade, a democracia e os valores que unem milhões de brasileiros e americanos”.
O governo dos Estados Unidos concluiu no início de junho duas investigações comerciais que propõem novas tarifas. Uma delas, aberta em julho de 2025, questiona pontos como o Pix, regras de comércio digital, combate à corrupção, pirataria e acesso ao mercado de etanol, com proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros; a outra recomendou tarifa de 12,5% sobre produtos do Brasil e de outros mercados sob alegação de medidas insuficientes contra exportações associadas ao trabalho forçado.
Leia a tradução na íntegra:
Prezado Senador Bolsonaro:
Agradeço sua carta e sua recente visita a Washington. Compartilho sua convicção de que a amizade duradoura entre os Estados Unidos e o Brasil deve permanecer ancorada em valores compartilhados, respeito mútuo e uma visão unificada para a segurança e a prosperidade do Hemisfério Ocidental.
Aprecio profundamente seu apoio à nossa decisão de designar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como Terroristas Globais Especialmente Designados e Organizações Terroristas Estrangeiras, de acordo com a legislação dos Estados Unidos. Os Estados Unidos reconhecem que as redes criminosas violentas e sofisticadas dessas facções ameaçam a segurança de cidadãos honestos em todo o nosso hemisfério compartilhado. Ao atingir suas redes financeiras, de tráfico de drogas e de armas, estamos adotando medidas decisivas para proteger tanto o povo brasileiro quanto o americano contra o crime organizado transnacional.
Como o senhor observa, o embaixador Jamieson Greer, representante de Comércio dos Estados Unidos, anunciou em 1º de junho de 2026 sua conclusão de que determinados atos, políticas e práticas do Brasil oneram ou restringem de forma injustificável e discriminatória o comércio dos Estados Unidos. Ele propôs uma ação de resposta para consulta pública. Essa determinação e a proposta de ação decorrem de uma investigação iniciada em julho de 2025 por orientação específica do presidente Trump.
O embaixador Greer deixou claro que continuamos a ter divergências substanciais na resolução das questões identificadas nessa investigação. Elas dizem respeito ao comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais injustas, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
Qualquer parte interessada no Brasil poderá participar do período de consulta pública sobre a proposta de medida e da audiência pública realizada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, que ocorrerá em 6 de julho de 2026. O período de consulta pública permanecerá aberto até 1º de julho de 2026. Os pedidos para participar da audiência deveriam ter sido apresentados até 22 de junho de 2026.
Os Estados Unidos permanecem firmes em seu desejo de ver um Brasil próspero, seguro e economicamente estável. Observamos seu otimismo quanto aos próximos meses de outubro e esperamos sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição, caso o senhor seja eleito. Os Estados Unidos estão prontos para trabalhar cooperativamente com os líderes escolhidos pelo povo brasileiro para construir uma estrutura ampla, justa e mutuamente benéfica de comércio e investimentos.
Aguardo a continuidade de nosso diálogo e o aprofundamento da parceria estratégica entre nossas duas grandes nações. Que Deus abençoe os Estados Unidos e o Brasil.
Atenciosamente,
Marco Rubio



