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Copa do Mundo reduz divisões políticas entre brasileiros

A Copa do Mundo reduz divisões políticas entre brasileiros e aparece, para a maioria da população, como um momento capaz de aproximar pessoas de opiniões diferentes, inclusive em famílias, grupos de amigos e ambientes de trabalho marcados por debates ideológicos nos últimos anos, segundo levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro divulgado pelo jornal O Globo.

De acordo com a pesquisa “Copa do Mundo e Laços Coletivos no Brasil”, 70% dos brasileiros afirmam que o Mundial ajuda a aproximar pessoas com visões políticas distintas. O estudo também aponta que 80% dos entrevistados concordam com a ideia de que a Copa é um período em que o país torce junto, enquanto 9 em cada 10 veem o torneio como um fator de união nacional.

O levantamento indica uma mudança no clima social em torno da seleção brasileira. A camisa amarela, reconhecida mundialmente como símbolo do futebol brasileiro, foi associada nos últimos anos a disputas políticas e passou a carregar significados ideológicos para diferentes grupos. Com a Copa de 2026, porém, o uniforme volta a ser percebido por parte expressiva da população como um emblema de orgulho, pertencimento e identidade nacional.

Presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles afirmou que os resultados mostram um cansaço da sociedade em relação à politização de espaços de convivência. “Teve um pouco de surpresa nos resultados. A gente pesquisa sobre Copa do Mundo desde 2014, mas não desse mesmo jeito. A última Copa (no Catar, em 2022) era muito polarizada, com a discussão sobre camisa azul ou amarela. Ainda era polarizada por conta do Bolsonaro e do Lula. Agora, a população está mais cansada dessa briga que vinha até o futebol. Hoje, ações como colocar a bandeira do Brasil e junto escrito ‘é pra Copa’ são vistas como menos radicalizadas”, declarou.

A percepção de que o futebol pode suspender, ainda que temporariamente, as disputas políticas também aparece quando os entrevistados são divididos por campo ideológico. Segundo a pesquisa, 84% dos eleitores de esquerda e 82% dos eleitores de direita avaliam que a torcida pelo Brasil se une durante a Copa. Para 80% dos participantes, o país torce de forma conjunta nos jogos da seleção.

“Existe um cansaço dessa divisão, e o futebol acaba funcionando como uma boia no processo pré-eleitoral. Quando 80% diz que o país torce junto, e é o mesmo número da esquerda e da direita, o que está sendo dito é que a diferença está sumindo, e que por 90 minutos pode ser suspensa”, afirmou Meirelles.

Apesar desse movimento de aproximação, a pesquisa mostra que a polarização ainda não desapareceu do imaginário dos brasileiros. Para 61% dos entrevistados, a disputa política também se manifesta na forma como as pessoas vivem a Copa. Entre os eleitores de esquerda, 69% concordam com essa avaliação. Entre os de direita, o índice é de 65%. Outros 13% discordam da afirmação, enquanto 26% não concordam nem discordam.

A camisa da seleção permanece no centro desse debate simbólico. Em ano eleitoral, atores políticos de diferentes campos têm buscado associar sua imagem ao verde e amarelo. Flávio Bolsonaro (PL) chegou a se referir ao uniforme como “camisa do Bolsonaro” em discurso a apoiadores. Já o presidente Lula (PT) apareceu usando a camisa da seleção em publicações nas redes sociais e defendeu que a esquerda também adote o símbolo nacional.

Para Renato Meirelles, os dados indicam que parte da população deseja recuperar espaços de convivência afetados por conflitos políticos. “A mesa de almoço volta a existir. 72% dizem que aproximam familiares, amigos e colegas que pensam diferente, diz que pode voltar a ter o almoço de domingo, a convivência volta a ser possível. Nos últimos anos foram famílias afastadas, amizades rompidas, e grupos de mensagem destruídos. A camisa tinha virado um refém político, e isso tinha cobrado um preço simbólico muito alto. Durante muito tempo deixaram de usar a camisa que era do pai, do avô, mas que, no momento político, tinha outro significado. É um começo de devolução dessa camisa.”

O levantamento também mostra ampla disposição para o uso da camisa da seleção durante a Copa. Segundo os dados, 93% dos eleitores de esquerda e 92% dos eleitores de direita pretendem vestir o uniforme em algum momento do torneio. No conjunto da população, 62% afirmam sentir orgulho de usar a camisa brasileira.

A pesquisa “Copa do Mundo e Laços Coletivos no Brasil” foi realizada entre 2 e 8 de junho de 2026, com 1.030 brasileiros de 18 anos ou mais, em todas as regiões do país. A margem de erro é de 3,1 pontos percentuais. O estudo perguntou aos participantes, entre outros pontos, como se posicionam politicamente, incluindo esquerda, direita, centro ou nenhuma dessas opções.

“ No instituto vivemos pesquisando a sociedade. A relação da Copa não é qualquer coisa para os brasileiros, tem uma ligação histórica. Reflete quais são os ânimos do Brasil e como entram nas eleições. Esses resultados foram mais otimistas do que o esperado. Eu mesmo me surpreendi. As pessoas estão dispostas a unir a família”, afirmou Meirelles.

Os resultados aparecem em meio à participação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026 e reforçam o peso do futebol como elemento de mobilização social no país. Mesmo em um ambiente político ainda marcado por disputas simbólicas, a competição surge, segundo o levantamento, como um raro espaço de convergência entre brasileiros de diferentes posições ideológicas.

Com 247

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