
Atenção: o texto abaixo contém dados cavalares de pornografia social explícita.
O total de rendimentos do 1% mais rico da população foi de R$ 53,1 bilhões, em 2025, enquanto a soma dos 40% mais pobres foi apenas um pouco mais que isso: R$ 56,4 bilhões. Já o rendimento médio domiciliar por pessoa do 1% mais rico foi de R$ 24.973, o que representa 37,7 vezes a média dos 40% mais pobres (R$ 663).
A concentração do cascalho na mão dos mais abastados aumentou um pouco em relação a 2024, mas os dois últimos anos ainda são aqueles com menor concentração desde o início da série histórica, em 2012.
Mesmo assim, tudo isso é uma grande sacanagem. Tragam as crianças para a sala porque elas precisam conhecer bem esse tipo de pornografia. Talvez assim, quando crescerem, não se transformem em brasileiros que têm um orgasmo quando a Forbes mostra, em sua lista anual, mais um compatriota se tornando bilionário.
A relação entre baixa renda e tempo de descanso semanal é, de maneira geral, inversamente proporcional. Quanto menor a renda de um trabalhador, menor costuma ser o seu tempo disponível para descanso, lazer e convívio social. A isso damos o nome de “pobreza de tempo”, que ocorre quando a falta de grana cria uma engrenagem que rouba as horas livres do indivíduo.
Entre as razões para isso, está a necessidade de ter múltiplos trabalhos e bicos ou de realizar muitas horas extras para conseguir pagar as contas (não raro eliminando o único dia de descanso); a especulação imobiliária que empurra quem menos tem para as periferias, longe de onde os empregos se concentram, fazendo com que trabalhadores percam a vida no trânsito; quem tem mais renda pode pagar por serviços de faxina, quem não tem, precisa fazer jornadas duplas, e as mulheres são as que mais se lascam; e, claro, como muitos trabalhadores estão na economia informal e nos aplicativos, eles não têm a mesma estrutura de proteção social que a CLT.
Tempo, tal como bolsa, calça, casaco e carro, é artigo de luxo. A situação piora porque milhões de trabalhadores pobres de profissões precarizadas, como domésticas, faxineiros, rurícolas, vendedores, têm direito a apenas uma folga semanal. Descansar duas vezes? É coisa de trabalhador rico.

E, assim como há a pobreza de tempo, também existe o seu oposto. Quanto mais cascalho se tem, mais tempo normalmente há para desfrutá-lo. Nessa hora, muita gente grita: sou rico e trabalho demais! Certamente, há muitos. Mas eles não têm a pressão que vem da percepção de que, se trabalharem menos, talvez não comam à noite. Em outras palavras, os mais ricos têm poder de escolha, de decidir o que fazer com o seu próprio tempo. E, infelizmente, com o tempo dos outros também.
Não à toa, a discussão sobre o fim da escala 6×1 é tão difícil: ela não trata apenas de um dia a mais de folga. Trata de poder. De quem tem o direito de ver o filho acordado, de almoçar sem pressa, de cuidar da própria saúde, de visitar a mãe, de dormir até o corpo parar de tremer por dentro. Trata de reconhecer que descanso não é prêmio por bom comportamento, nem mimo: é condição básica para uma vida minimamente humana.
O problema é que, no Brasil, quando pobre pede tempo, chamam de preguiça frente ao trabalho. Quando rico compra tempo, chamam de justo descanso diante do sucesso. Se o sujeito abastado terceiriza tudo (a limpeza, a comida, o cuidado dos filhos, o deslocamento, a burocracia, a espera), ele é eficiente. Se o trabalhador quer um sábado e um domingo para existir fora da função de produzir, ele está ameaçando a economia.
Essa, sim, é a verdadeira pornografia nacional: a obscenidade de um país que se escandaliza com palavrão, mas acha normal essa concentração de renda e de tempo. E é por isso que as crianças deveriam saber desde cedo o que ocorre na sua terra sob responsabilidade de sua gente. Não para se acostumarem com isso, mas para aprenderem a sentir vergonha do que realmente é indecente. Com DCM



