AMÉRICA LATINA

O intervencionismo trumpista e a eleição colombiana de hoje

No momento em que Donald Trump, insuflado por Flávio Bolsonaro e família, estica as garras sobre o Brasil ao caracterizar PCC e CV como organizações terroristas, a eleição de hoje na Colômbia assume importância crucial nesta conjuntura de crescente intervenção norte-americana na América Latina.

As pesquisas apontam como favorito o candidato do presidente Gustavo Petro, Iván Cepeda. Se ele for vitorioso hoje em primeiro turno, o eixo da soberania e da resistência ao imperialismo trumpista, liderado pelo presidente Lula, sairá fortalecido. O pilar colombiano será mantido, numa América Latina dominada por governos de direita. As mesmas pesquisas, entretanto, dizem que Cepeda precisa crescer um pouco mais na reta final da campanha para alcançar os 50% mais um dos votos nacionais.

Em segundo lugar está o candidato de extrema-direita Aberlardo de la Espriella, um advogado e empresário muito rico que se lançou agora na política. Ele é admirador de Trump, Milei e Nayib Bukele, o terror de El Salvador. E de seu vizinho do Equador, Daniel Noboa, que vive às turras com Petro e está fazendo o que pode para ajudá-lo nesta reta final. Uma eventual vitória de Espriella, se não hoje, mas no segundo turno, seria uma vitória para Trump e uma derrota para a esquerda no continente. Lula ficaria ainda mais isolado.

Em terceiro lugar, com poucas chances de chegar ao segundo turno, está a também direitista Paloma Valencia, senadora apoiada pelo ex-presidente e líder histórico da direita colombiana, Álvaro Uribe.

Espriella defende a política de Trump de combate ao “narcoterrorismo” em qualquer lugar do mundo, o que já permitiu tantas execuções sumárias na costa da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e de sua mulher. Em sua campanha, Espriella acusa Petro de não dar combate efetivo ao narcotráfico e aos grupos criminosos e acaba de apresentar uma proposta estrepitosa para enfrentar o problema de segurança: a construção de dez megapresídios, semelhantes aos existentes em El Salvador, nos quais aprisionaria milhares de criminosos, e também a construção de dez grandes complexos para internar e tratar dependentes de drogas. De onde viria o dinheiro, não soube dizer, mas, num país em que a população sofre com o crescimento do crime e da violência, propostas desta natureza têm seu apelo.

A briga Equador-Colômbia

Daniel Noboa, presidente de extrema-direita do Equador, detesta Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da Colômbia.

A pinimba se agravou a partir de abril, quando Petro passou a denunciar como política a prisão do ex-vice-presidente Jorge Glas. A polícia equatoriana invadiu a Embaixada do México, onde ele buscava asilo, e o prendeu, violando a Convenção de Genebra, que fixa regras internacionais para o exercício da diplomacia. Disso resultou o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países.

Glas é condenado em vários processos por corrupção, um dos quais envolvendo a empreiteira brasileira Odebrecht. Petro diz que ele é vítima de lawfare e da reprodução da Lava Jato em outros países do continente. Ele foi vice de Rafael Correa, que vive exilado na Europa para não ser preso no Equador.

Noboa, que vive acusando Petro de não dar combate efetivo aos traficantes, permitindo que adentrem o território equatoriano, fez recentemente uma operação de combate ao crime organizado em parceria com o Exército dos Estados Unidos. Petro denunciou a explosão de bombas no território colombiano e a localização de dezenas de corpos, que teriam sido vítimas da operação militar conjunta. Depois se viu que esses corpos já estavam lá e certamente foram resultado de confronto entre grupos criminosos.

Em retaliação, Noboa impôs tarifas de 100% para a entrada de qualquer produto colombiano no Equador, uma medida com graves repercussões não apenas econômicas, mas também sociais, especialmente para as populações de fronteira que dependem do comércio bilateral. Os dois países têm quase 600 km de fronteira terrestre e nela vivem camponeses e indígenas, dos dois lados. A Comunidade Andina condenou o tarifaço de Noboa, mas ele não recuou.

Até que, na sexta-feira, véspera do pleito, ele anunciou que vai revogá-las porque obteve do candidato Espriella a promessa de combate efetivo e conjunto ao crime organizado. Esta foi, claramente, como denunciaram Petro e seu candidato, uma tentativa de interferência na eleição. Sua postagem em redes sociais foi como se ele dissesse aos colombianos: se votarem em Espriella, a importante relação comercial bilateral será normalizada.

Noboa, como Milei, integra a vanguarda trumpista e entreguista no continente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

com 247

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