
(Folhapress) — Um agora ex-pastor da Igreja Batista da Lagoinha é investigado sob suspeita de crimes contra a dignidade sexual de dois fiéis adolescentes, hoje com 16 e 17 anos. Decisão da 1ª Vara Especializada em Crimes contra a Criança e o Adolescente de Belo Horizonte impôs medidas protetivas urgentes contra o religioso, fundamentadas na Lei Henry Borel.
Lucas Tiago de Carvalho Silva, de 37 anos, que atuava como líder de adolescentes na unidade do bairro São Geraldo, na região leste da capital mineira, é investigado por suposto aliciamento e prática de atos libidinosos. De acordo com o documento judicial, ele utilizava sua “eloquência pastoral” e posição religiosa para manipular jovens e seus familiares, dissimulando intenções sexuais sob o pretexto de amizade e aconselhamento espiritual.
Em nota enviada ao jornal, a Lagoinha afirmou que agiu de forma “imediata e responsável” ao tomar conhecimento das denúncias no final de janeiro. Silva, que negou as acusações, foi afastado do cargo na ocasião. Segundo a instituição, as famílias foram ouvidas em menos de 24 horas após o relato e orientadas a procurar as autoridades.
A defesa de Silva não foi localizada para comentar as acusações. A reportagem enviou mensagens pelo WhatsApp ao ex-pastor e tentou ligar duas vezes.
As denúncias detalham métodos distintos de abordagem para cada vítima. No caso de um dos adolescentes, a interação teria começado após a criação de um grupo de estudos de livros cristãos. As conversas, segundo narrado pela mãe de um dos jovens, evoluíram para o envio de fotos e vídeos de conteúdo sexual, incluindo mídias do pastor nu e se masturbando.
O suspeito utilizava mensagens de visualização única e alegava estar em “crise no casamento” e sem manter relações sexuais com a esposa para ganhar a confiança do menor.
No caso da segunda vítima, de acordo com relato de sua mãe, as investidas teriam acontecido na cozinha da unidade e sobre tatames utilizados para oração. O investigado teria praticado toques abusivos, beijos no pescoço e sexo oral.

Em depoimento à Polícia Civil, a mãe desse jovem disse que Silva “usava sua lábia” para convencê-la a mandar o filho à igreja.
Os adolescentes também foram ouvidos na delegacia. Um deles disse que, se no início a relação acontecia “de forma normal, com abraço e carinho”, no final “já foi para um lado que eu considerei abuso e pedofilia”. Contou que foi abraçado repentinamente na cozinha da igreja e pressionado contra a parede para não escapar. Disse que, nessas horas, ficava sem reação.
O outro jovem afirmou que nunca foi abordado quando se encontravam pessoalmente, mas foi exposto mais de uma vez pelo pastor a “conteúdo impróprio no celular” dentro de um carro.
O documento da Justiça narra que Silva foi até a casa de uma das vítimas e forçou o portão da residência após ter a entrada negada pelos pais.
O juiz determinou que Silva mantenha distância mínima de 500 metros das vítimas. Ele está proibido de contatá-las por qualquer meio físico ou digital. Também foi vetado de frequentar os arredores da Lagoinha São Geraldo. O descumprimento das ordens pode resultar em prisão preventiva imediata.
A Folha não vai identificar pelo nome nenhum dos jovens nem seus pais, para proteger a identidade das vítimas menores de idade.
À reportagem, a mãe de um dos jovens descreveu um cenário de isolamento e pressão após a revelação dos fatos. Segundo ela, a orientação inicial da liderança regional da Lagoinha foi para que as famílias se afastassem dos cultos para “não atrapalhar as investigações” e evitar encontros com o acusado.
A sensação que ela teve foi de que “era para não divulgar muito o assunto” e de uma preocupação central em desvincular Silva da Lagoinha.
A mãe relata ainda ter sofrido represálias da comunidade. Membros da congregação teriam enviado mensagens aos irmãos das vítimas questionando “o que a família tinha aprontado” para prejudicar o pastor, “como se nós fôssemos os errados”. Segundo ela, o apoio jurídico prometido pela denominação foi vago e ineficaz.
A Igreja Batista da Lagoinha diz que o investigado negou as acusações em um primeiro momento, mas foi afastado imediatamente de todas as funções e proibido de frequentar a unidade.
“A denúncia foi recebida na terça-feira, 27 de janeiro, por volta das 20h. Na manhã de quarta-feira, 28 de janeiro, às 7h, a liderança ouviu pessoalmente as famílias e vítimas, orientando a imediata busca pelas autoridades competentes e disponibilizando apoio pastoral, psicológico e orientação jurídica.”
O caso está hoje em fase de inquérito policial, conduzido pelas autoridades de Minas Gerais. “A igreja permanece à disposição para colaborar.”
A Lagoinha disse ainda repudiar “de forma absoluta qualquer prática contra a dignidade e integridade de crianças e adolescentes”, e que, “como igreja de Cristo”, não tolera nem relativiza essas condutas.
“Oramos para que a verdade venha à luz e confiamos na responsabilização dos envolvidos, reafirmando nosso compromisso de proteger e cuidar de toda a comunidade.”



