POLÍTICA

Com as bets, Brasil já entra derrotado na Copa. Por Leonardo Sakamoto

Bets são hoje um dos maiores programas de transferência de renda de pobres para ricos do Brasil Imagem: Imagem gerada por IA

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Bets já recolhem impostos do mesmo montante que a agricultura, com a diferença de que não produzem nada além de endividamento e graves problemas mentais, representando um Robin Hood às avessas, que tira dos pobres para dar aos ricos. E ainda fingem que trazem ganhos ao Estado.

Reportagem de Pedro S. Teixeira, na Folha de S.Paulo de hoje, apontou que a arrecadação com impostos sobre apostas chegou a R$ 4,5 bilhões nos quatro primeiros meses deste ano. O valor recebido pelo poder público, tão celebrado por alguns cabeças de planilha, não faz nem cócegas para o tamanho do rombo social gerado pela atuação desses sites e plataformas na saúde, na economia e no cotidiano da população.

O Brasil amarga um enorme prejuízo na relação com as bets. Isso sem contar as suspeitas de corrupção e de uso de plataformas para lavagem de dinheiro do crime organizado, que vêm sendo investigadas.

E a população sabe disso, Do total de eleitores, 59% creem que bets provocam endividamento, 62% concordam que elas viciam e, diante disso, 44% defendem que devam ser proibidas, frente a 24% que acham que elas devam continuar operando, segundo a última pesquisa Meio/Idea.

Site de casa de apostas em celular. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

E quem mais bota dinheiro nessas dragas é quem menos tem — o que não surpreende, dada a difusão das mentiras de enriquecimento rápido com o jogo. Entre os que ganham até um salário mínimo, quase 25,8% apostaram recentemente. Já entre os que ganham mais de cinco salários mínimos, a taxa cai para 16,7%.

E 28% creem que algum familiar aposte escondido, o que é sinal de que sabe que não pode ou não deveria, mas, mesmo assim, faz. A população vai percebendo que, em termos de vício, a diferença entre bets e o crack é que um traz o risco da boca, e o outro, a segurança do celular.

Nenhum imposto pago por plataforma de apostas cobre o custo de uma família destruída pela dívida, de um tratamento de saúde mental que o SUS não vai conseguir oferecer porque a fila de viciados em jogo é longa, de uma criança que vai dormir com fome porque o responsável acreditou, mais uma vez, que dessa vez ia dar certo, de um jovem que adiou o sonho de entrar na faculdade porque crê que bet é fonte de renda.

A jogatina não criou o desespero brasileiro. Ela só aprendeu a monetizá-lo com extrema eficiência.

As bets deveriam ter sido banidas no governo Jair Bolsonaro, que foi leniente com o crescimento do problema, autorizando repasses ao futebol, depois no governo Lula, que preferiu regulamentá-las, apostando que iria colocar ordem na casa. Agora, parte da economia amarrou seu burro nessa tragédia, o que tem servido como justificativa para a mídia, o entretenimento e o esporte pressionarem para manter tudo como está.

Vamosais uma vez: as bets não produzem riqueza. Apenas redistribuem renda de baixo para cima, concentrando dinheiro nas mãos de poucos empresários, influenciadores e investidores, enquanto espalham prejuízos por milhões de lares.

E o mais perverso é que fazem isso vendendo um sonho. Porque, quando a mobilidade social desaparece e o futuro parece interditado, apostar deixa de ser apenas uma aposta. Passa a ser um atalho para a obtenção, através do consumo, dos símbolos de status e de inclusão. O drama é que, do outro lado da tela, não há salvação no fim da trilha. Só alguém lucrando com o desespero alheio.

Já que uma proibição total seria impossível hoje, o Congresso Nacional deveria aprovar os projetos que proíbem anúncios de bets, tal como ocorre com o tabaco. Mas, como a bancada dos amigos dos tigrinhos é volumosa e poderosa na Câmara e no Senado, reunindo caciques que viajam nas asas dos donos dos cassinos, nem isso vai acontecer.

Pelo contrário, com a Copa do Mundo, veremos uma inundação de propagandas de apostas, o que vai resultar em uma pilhagem histórica. Não importa o resultado do futebol, o Brasil já perdeu antes mesmo de a bola rolar.

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