GEOPOLÍTICA

Sakamoto: Gaza soma 1.000 mortos após cessar-fogo enquanto mundo só fala no Irã

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Enquanto o mundo acompanha o ataque de Israel ao Líbano, o posterior ataque do Irã ao norte de Israel e o consequente ataque de Israel ao Irã, movimentos que podem colocar em risco um acordo entre os EUA e o regime dos aiatolás, a ideia de cessar-fogo é uma ficção em Gaza.

O governo Benjamin Netanyahu matou, ao menos, 14 pessoas em Gaza e feriu dezenas de outras ontem, em ataques em Khan Younis, Cidade de Gaza e Deir el-Balah, segundo relato de correspondentes de guerra da Al Jazeera. Enquanto isso, Israel fechou as entradas para o território, impedindo a chegada de ajuda humanitária.

Os conflitos principais foram interrompidos em outubro do ano passado, quando os EUA anunciaram um cessar-fogo (sic) em Gaza. Mas o plano de retirada das tropas israelenses, de desarmamento do Hamas e de reconstrução do território é algo ainda no campo da abstração.

Do anúncio até agora, quase 1.000 pessoas morreram e outras 2.900 ficaram feridas devido aos ataques israelenses. E, desde outubro de 2023, quando o ataque terrorista do Hamas deixou 1.200 mortos em Israel, foram quase 73.000 mortos em Gaza, em um processo que uma investigação independente levada a cabo pelas Nações Unidas considerou como genocida. Os números são do sistema de saúde de Gaza, referendados pela ONU e considerados subestimados por pesquisadores.

Destruição em Gaza. Foto: Divulgação

Neste momento, o Egito realiza uma nova rodada de negociações com líderes do Hamas e de outras facções palestinas para salvar um cessar-fogo. Este conflito, contudo, por não afetar o preço internacional do petróleo, interessa a poucos. Gente pobre morrendo não aumenta a inflação global, não interfere em eleição, nem gera instabilidade regional, muito menos afeta o equilíbrio entre potências.

Se um cessar-fogo é medido pela ausência de manchetes, talvez Gaza esteja em paz. Mas, se é medido pela preservação de vidas e pela entrada de ajuda humanitária, o termo perdeu qualquer sentido.

Quase mil mortos desde o anúncio da trégua expõem a distância entre a diplomacia das declarações e a realidade dos escombros. Enquanto a atenção internacional oscila conforme o preço do barril tipo Brent, Gaza segue sendo o lugar onde a morte se tornou rotina e a indignação global, episódica. Chamar isso de cessar-fogo não descreve a realidade. Pelo contrário, ajuda a escondê-la.

Com DCM

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