
O bolsonarismo vive seu grande teste de fogo. Apanhados em contradições, os irmãos Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro tropeçam nas próprias versões na tentativa de sustentar narrativas tão inverossímeis que constrangem até os fiéis da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, liderada pelo pastor Silas Malafaia. O roteiro improvisado criado pelos filhos de Jair Bolsonaro não resiste à verdade dos fatos, revelada aos poucos, em conta-gotas. A cada dia, Flávio Bolsonaro se vê obrigado a reformular a versão apresentada anteriormente.
A pergunta que todos se fazem nesse momento não é mais se Flavio irá para o segundo turno da eleição, mas se o bolsonarismo sobrevive aos tsunamis que ainda estão por vir nas investigações do caso Banco Master.
De sua prisão domiciliar em um condomínio de luxo em Brasília, usando tornozeleira eletrônica, o “ex-poderoso” chefão da máfia tupiniquim vê ameaçado o seu maior patrimônio político: os milhões de seguidores da seita “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, abalados agora por uma denúncia de corrupção difícil de contestar.
Mais do que isso: alguns lobos da própria matilha já começam a mostrar os dentes ao líder da extrema direita, Jair Bolsonaro. Uma das maiores ameaças ao “clã” Bolsonaro vem de Renan Santos, um dos fundadores e coordenadores do Movimento Brasil Livre e também candidato pelo recém-criado partido Missão.
Em pesquisa da Atlas/Bloomberg, Renan aparece em terceiro lugar, com 6,9% à frente dos ex-governadores de direita Romeu Zema e Ronaldo Caiado. O líder do Movimento Brasil Livre tem cobrado explicações de Flávio Bolsonaro após o vazamento de áudios nos quais o senador pede R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Renan Santos chegou a afirmar recentemente que “onde há escândalo de corrupção, há Flávio”.
O enfraquecimento do bolsonarismo não significa, necessariamente, o fim da extrema direita. O movimento deve continuar, por algum tempo, sustentando um discurso de viés fascista e de ataques à democracia.
A grande questão é saber qual será o futuro da família Jair Bolsonaro: conseguirá sobreviver a mais esse escândalo? O desgaste político do “clã” poderá levar a um recuo estratégico do chamado Centrão em temas como a redução das penas dos golpistas?
Em breve, o Supremo Tribunal Federal deve analisar as ações protocoladas por partidos políticos e pela Associação Brasileira de Imprensa contra a chamada Lei da Dosimetria, que reduz as penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, entre eles, o próprio Jair Bolsonaro.
Se o STF considerar a lei inconstitucional, qual será a reação dos parlamentares e governadores bolsonaristas? Irão contestar a decisão no plenário e nas ruas ou vão abandonar a família Bolsonaro à própria sorte, em meio ao mar de lama do novo escândalo de corrupção?
No pior dos cenários para a família Bolsonaro, o ex-presidente poderá acabar tendo a companhia de dois de seus filhos no cumprimento de eventual pena de prisão?
As dúvidas que pairam sobre o futuro do “clã” Bolsonaro se aproximam mais do roteiro de um filme de suspense do que de uma simples chanchada política.
Já para a campanha eleitoral deste ano, é importante que os setores progressistas não cantem vitória antes da hora. O caminho ainda é longo. O mercado financeiro, o agronegócio e a mídia corporativa dificilmente entregarão os pontos sem resistência. Devem entrar na disputa com força total para tentar derrotar a esquerda, como ocorreu em diferentes momentos desde a redemocratização do Brasil, em 1985.
O presidente Lula conhece como poucos as armadilhas da direita brasileira. A última delas talvez tenha sido justamente a tentativa de alimentar a versão de que Fernando Haddad poderia substituí-lo na disputa presidencial. Colocar em dúvida sua disposição de concorrer à reeleição é criar uma incerteza que, na prática, não existe.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



