
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) enviou ofício à Polícia Federal (PF) e ao Escritório Central Nacional da Interpol no Brasil solicitando cooperação penal internacional para investigar a origem e a movimentação dos recursos empregados na produção de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O pedido, anunciado neste domingo (31), foi assinado pelo parlamentar e pelo advogado Reinaldo Santos de Almeida, coordenador jurídico da Liderança do PT na Câmara dos Deputados. Com base em reportagens da Agência Pública e do Metrópoles, Lindbergh aponta uma suposta arquitetura financeira transnacional e pede que autoridades rastreiem contratos, contas e transferências internacionais para identificar quem financiou o projeto e se houve ocultação de beneficiários.
O pedido à Interpol
Lindbergh Farias formalizou o pedido de cooperação penal internacional direcionado simultaneamente à PF e ao Escritório Central Nacional da Interpol no Brasil. O objetivo declarado no ofício é rastrear a origem, a circulação e os beneficiários finais dos recursos empregados na produção de Dark Horse. Para isso, o parlamentar solicita que as autoridades brasileiras acionem os escritórios da Interpol nos Estados Unidos, na Holanda e na Hungria, países que, segundo o documento, integram a estrutura financeira identificada nas reportagens que embasaram o pedido.
Entre as medidas concretas requeridas, Lindbergh pede o uso da Silver Notice, ferramenta da Interpol voltada à localização de ativos e informações financeiras no exterior. O parlamentar também solicita urgência na preservação de contratos, ordens de pagamento, mensagens comerciais e registros contábeis ligados à produção, argumentando que há risco real de destruição de documentos eletrônicos e encerramento de contas bancárias no exterior antes que qualquer investigação formal seja instaurada. A preocupação com o “apagamento de registros”, como o próprio ofício nomeia, é apresentada como justificativa central para a urgência do pedido.
A arquitetura financeira
O ofício descreve o que Lindbergh chama de “arquitetura transnacional de movimentação de recursos”, estruturada em pelo menos quatro países. O documento menciona uma ordem de pagamento de US$ 57,5 mil destinada à empresa New Path Pictures Inc., sediada na Califórnia, intermediada pela Stichting Freeway Custody, entidade registrada na Holanda. Segundo o parlamentar, essa estrutura de custódia teria sido buscada justamente por permitir que investidores permanecessem anônimos, o que, a seu ver, justifica a identificação dos beneficiários reais por parte das autoridades.
Um dos pontos mais sensíveis do ofício diz respeito ao papel de Eduardo Bolsonaro no projeto. Segundo Lindbergh, documentos revelados pela Agência Pública indicariam que o ex-deputado foi descrito como “financiador” da produção, em contradição direta com declarações públicas de que teria apenas cedido direitos de imagem para o filme. O parlamentar também cita negociações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Mensagens divulgadas pela imprensa apontam que Eduardo Bolsonaro orientou o envio aos Estados Unidos de recursos negociados por Flávio com Vorcaro.
O ofício ainda menciona cerca de US$ 2 milhões destinados ao fundo Havengate, operado por Eduardo Bolsonaro, e transferências realizadas por Jair Bolsonaro ao filho via Pix.
“O caso envolve Flávio Bolsonaro, que teria cobrado R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e a produtora Go Up Entertainment, que teria recebido R$ 61 milhões. Também devem ser apurados os cerca de US$ 2 milhões destinados ao fundo Havengate, operado por Eduardo Bolsonaro, bem como transferências via Pix realizadas por Jair Bolsonaro para Eduardo, para verificar a origem, a destinação e a eventual conexão desses recursos com estruturas financeiras sob investigação. O pedido busca acionar autoridades dos Estados Unidos, Holanda e Hungria para rastrear contas, contratos, ordens de pagamento, empresas, fundos, estruturas de custódia e beneficiários reais dessa operação internacional”, escreveu Lindbergh ao anunciar o ofício em suas redes sociais.
Muitas perguntas
A ação de Lindbergh Farias busca responder a uma pergunta que as reportagens levantaram, mas não fecharam: se a produção de Dark Horse serviu como fachada para operações financeiras não declaradas. O deputado questiona explicitamente se as movimentações descritas respeitaram as normas cambiais brasileiras e sustenta que o uso combinado de empresas, fundações, contratos privados e estruturas fiduciárias em diferentes jurisdições configura um padrão que justifica investigação por possível lavagem de dinheiro e triangulação transnacional de recursos.
“É hora de seguir o caminho do dinheiro. Quem financiou? Quem recebeu? Quem ocultou? Quem usou uma suposta produção audiovisual para movimentar recursos no exterior? A Interpol precisa iniciar a cooperação penal internacional e ajudar o Brasil a rastrear essa arquitetura financeira e revelar os beneficiários finais da campanha por sanções e tarifas contra o Brasil!”, pontuou o deputado.



