
No centro de diversas polêmicas, a última a partir de uma fala categórica e certeira da senadora Soraya Tronicke, há algo de profundamente inquietante no fenômeno Frei Gilson. Não apenas pelo conteúdo de suas falas, amplamente documentadas e reiteradas, mas pela forma como elas chegam ao público: envoltas em uma estética de espiritualidade leve, musical, jovem, quase terapêutica. Lives de madrugada, convites à oração, violão suave, linguagem acolhedora. Tudo parece inofensivo — até que se escuta com atenção.
É justamente aí que reside o perigo.
Frei Gilson não representa apenas mais um líder religioso conservador. Ele encarna uma mutação contemporânea do autoritarismo religioso: uma versão palatável, emocionalmente sedutora e digitalmente eficaz de um projeto que busca reordenar a sociedade a partir de hierarquias rígidas, controle moral e exclusão simbólica. Em outras palavras, uma face doce de algo muito mais duro: o cristofascismo.
O termo pode soar exagerado à primeira vista, mas ganha contornos concretos quando analisamos o conjunto de suas declarações e práticas. Ao afirmar que mulheres “nasceram para auxiliar o homem” e que o desejo feminino por autonomia seria uma “fraqueza” alimentada pela “ideologia do empoderamento”, o frei não está apenas interpretando a Bíblia — ele está reafirmando uma estrutura de poder patriarcal como ordem divina incontestável. Não se trata de fé, mas de política travestida de teologia.
Quando associa o comunismo a um “flagelo” do qual o Brasil deve ser livrado por intervenção divina, ele não está apenas expressando opinião ideológica — está mobilizando o medo religioso como ferramenta política. Ao ridicularizar debates sobre racismo como “mimimi” e normalizar termos racialmente problemáticos sob a justificativa de “carinho”, ele reforça estruturas históricas de desigualdade enquanto deslegitima qualquer tentativa de enfrentá-las.
E talvez mais grave: ao atacar religiões de matriz africana e o espiritismo, sugerindo que suas práticas são obra do diabo, ele alimenta um ciclo perigoso de intolerância religiosa — algo que, no contexto brasileiro, tem consequências concretas, violentas e historicamente enraizadas.
Nada disso ocorre no vácuo.
O crescimento meteórico de Frei Gilson coincide com um momento de intensa polarização política no Brasil, no qual símbolos religiosos passaram a ser instrumentalizados como marcadores ideológicos. Ainda que não declare apoio explícito, sua proximidade simbólica com figuras como Jair Bolsonaro e o acolhimento que recebe de setores da direita não são acidentais. Eles revelam uma convergência de interesses: a construção de uma base moral-religiosa para sustentar projetos de poder autoritários.
Nesse sentido, a presença do nome do frei em documentos da Polícia Federal relacionados à investigação de tentativa de golpe — ainda que não como investigado — é sintomática. Mostra como o campo religioso, longe de ser neutro, está profundamente imbricado nas disputas políticas mais delicadas do país.
Mas o que diferencia Frei Gilson de outros atores desse campo é sua capacidade de comunicação.
Ele não grita. Não agride frontalmente. Não se apresenta como radical. Pelo contrário: sua imagem é a do jovem carismático, do padre acessível, do líder espiritual que acorda milhões às quatro da manhã para rezar. É justamente essa estética que torna sua mensagem mais eficaz — e mais perigosa.
O autoritarismo, quando vem com farda e discurso inflamado, é facilmente identificável. Quando vem com sorriso, música e linguagem de acolhimento, ele se infiltra. Em última instância, Frei Gilson é a antítese imagética de Silas Malafaia, mas defendendo o mesmo discurso bélico, preconceituoso e anticristão.
A estratégia é clara: primeiro, cria-se um vínculo emocional com o público. Depois, introduzem-se, de forma gradual, ideias que reforçam submissão, hierarquia e obediência. Por fim, essas ideias são naturalizadas como verdades espirituais inquestionáveis. O resultado é uma forma sofisticada de manipulação, na qual o controle não se impõe pela força, mas pela fé. E isso tem implicações profundas.
Ao defender que homens e mulheres têm “papéis diferentes” determinados por Deus, o frei legitima desigualdades de gênero. Ao demonizar ideologias políticas específicas, transforma adversários em inimigos morais. Ao atacar outras religiões, fragiliza o pluralismo religioso. Ao se posicionar como vítima de “cristofobia”, inverte a lógica do debate e transforma crítica em perseguição. Trata-se de um projeto.
Um projeto que busca não apenas influenciar indivíduos, mas moldar a sociedade. Um projeto que entende o Estado laico como obstáculo e a diversidade como ameaça. Um projeto que se alimenta da insegurança, do medo e da busca por sentido em tempos de crise.
Chamar isso de cristofascismo não é retórica vazia — é uma tentativa de nomear um fenômeno real: a fusão entre fundamentalismo religioso, autoritarismo político e estratégias modernas de comunicação.
Frei Gilson não é o criador desse movimento. Mas é, sem dúvida, um de seus rostos mais bem acabados. E talvez o mais eficaz.
Porque o perigo, desta vez, não chega com botas ou discursos raivosos.
Chega com violão, oração e um sorriso meigo às quatro da manhã.
Por Pastor Zé Barbosa Jr
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.o



