POLÍTICA

Como eleições nos EUA podem mudar tom de Trump com Brasil

Donald Trump e Lula. Foto: Ricardo Stuckert

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para a próxima terça-feira (3), podem reduzir o poder de Donald Trump no Congresso e alterar a relação de seu governo com o Brasil no início do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A votação ocorre nove dias após a reeleição de Lula e definirá a composição do Legislativo que poderá fiscalizar a política externa e comercial da Casa Branca.

Os eleitores escolherão os 435 integrantes da Câmara dos Representantes, 35 dos 100 senadores, 39 governadores de estados e territórios e milhares de cargos locais. Pesquisas apontam vantagem democrata na disputa pela Câmara e a possibilidade de o partido também alcançar o controle do Senado.

Trump voltou à Casa Branca em janeiro de 2025 com maioria republicana nas duas Casas, cenário que facilitou sua agenda de tarifas, ações militares e pressão sobre países da América Latina. Desde então, Washington aplicou taxas a produtos brasileiros e sanções contra autoridades, sob o argumento de que haveria perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

A embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, teve o visto revogado em agosto, embora mantenha autorização para trabalhar nos Estados Unidos. Durante a campanha, Lula criticou as medidas estadunidenses e usou a defesa da soberania como um dos eixos de seu discurso.

Congresso democrata ampliaria fiscalização sobre a Casa Branca

O historiador Lucas de Souza Martins, pesquisador da Universidade Temple, afirmou que Lula tende a preservar os canais institucionais com Washington. “Lula sempre foi muito pragmático nas suas relações com os EUA”, disse o pesquisador, ao avaliar que o presidente brasileiro terá de administrar os atritos diplomáticos com Trump.

Cabines de votação nos EUA. Foto: reprodução

Trump chega à eleição com aprovação de 31%, segundo pesquisa citada na análise. O custo de vida, a inflação, os preços dos combustíveis, a política migratória e denúncias de corrupção desgastaram o governo, enquanto candidatos republicanos tentam se afastar do presidente em algumas disputas estaduais.

Na Câmara, uma maioria democrata passaria a comandar comissões capazes de convocar audiências, investigar atos do Executivo e pressionar por limites orçamentários. O cientista político Michael Traugott, professor emérito da Universidade de Michigan, disse que o novo comando poderia tornar públicos detalhes e custos de políticas conduzidas por Trump, inclusive na área comercial.

O Congresso também pode examinar as tarifas impostas a produtos brasileiros e a estratégia estadunidense para a América Latina. No Senado, uma maioria democrata teria condições de barrar indicações de Trump para o gabinete, embaixadas e Judiciário; na Câmara, a oposição controlaria investigações sobre possíveis abusos de poder.

“Qualquer presidente em seu segundo mandato torna-se um lame duck após as eleições legislativas de meio de mandato”, afirmou Traugott, usando a expressão para definir a perda de influência no fim do governo.

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