POLÍTICA

Celulares de Cláudio Castro podem desnudar elo entre Flávio Bolsonaro, Bacellar, TH Joias e “Índio do Lixão”, do Comando Vermelho

Nas duas ações da Polícia Federal (PF) contra Cláudio Castro (PL-RJ) em 11 dias, ligando o ex-governador ao caso Refit e ao escândalo do Banco Master, acendeu um alerta vermelho na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), que vê as investigações avançarem sobre o elo dele próprio e de seu grupo político com lideranças do Comando Vermelho (CV), especialmente no fornecimento de fuzis, vindos dos EUA, para a facção criminosa.

Nas ações de busca e apreensão na cobertura de luxo de Castro, avaliada em mais de R$ 5 milhões, agentes federais apreenderam cinco telefones celulares. A devassa no conteúdo dos aparelhos deve desnudar de vez a ação do grupo político comandado por Flávio Bolsonaro e o tráfico internacional de fuzis, principalmente AK-47 e AR-15, que municiava a guerra entre traficantes e polícia no Rio de Janeiro.

Especialistas no combate às facções criminosas, como PCC e CV, como o promotor Lincoln Gakyia, do Ministério Público de São Paulo, e Mário Sarrubo, ex-secretário Nacional de Segurança Pública, afirmam que a medida anunciada pelo governo Donald Trump, de classificar as facções brasileiras como organizações terroristas, podem blindar aliados do presidente dos EUA, especialmente o clã Bolsonaro, dessas investigações.

Com a classificação, o tema sai da esfera de instituições como o DEA (Drug Enforcement Administration (Agência Antidrogas dos Estados Unidos) e FBI, que tinham acordos de colaboração com a PF e outros órgãos brasileiros, e vira assunto de defesa, caindo na alçada dos militares e da CIA, a agência de Inteligência estadunidense, que são subordinadas à Casa Branca, ocupada por Donald Trump.

Na prática, todas as informações compartilhadas com autoridades dos EUA sobre Comando Vermelho e PCC agora devem passar pela Casa Branca. E é Trump quem definirá se haverá colaboração ou não.

Com isso, as investigações da PF que avançam sobre a lavagem de dinheiro do crime organizado em Delaware, paraíso fiscal dos EUA, devem ser travadas. Ricardo Magro, do caso Refit que levou os agentes à cobertura de Castro, tem ao menos 15 offshores em Delaware e a PF suspeita que, além de imóveis, o megasonegador lavava dinheiro enviando fuzis em contêineres que seriam vendidos às facções criminosas no Brasil.

“Armas estão chegando ao Brasil em contêineres de lá; vêm peças de reposição ou o próprio armamento, ilegalmente. Pedi para o [secretário da Receita, Robinson] Barreirinhas fazer um relatório documentando com fotografias, número de contêineres, demonstrando que a parceria é fundamental. Se queremos impedir que a droga chegue lá [nos EUA], é fundamental que se iniba o crime nos territórios, impedindo que o armamento pesado chegue ao Brasil”, afirmou o então ministro Fernando Haddad ainda em 2025, quando a PF avançava nas investigações.

Em discurso nesta sexta-feira (29), ao falar sobre a ação de Flávio Bolsonaro nos EUA, Lula disse que comunicou Trump sobre o envio de armas dos EUA para as facções brasileiras.

“E nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá. Porque sabem que as armas importadas que são contrabandeadas para o Brasil vêm dos Estados Unidos. A Polícia Federal entregou um documento para o Trump. O Brasil está disposto a trabalhar para combater o crime organizado. E vamos começar pelo seu estado de Delaware, que tem lavagem de dinheiro de brasileiro. Vamos começar por aí. Vamos começar por entregar o [Alexandre] Ramagem, que está condenado a 16 anos e está escondido lá. Vamos começar entregando o maior contrabandista de combustível desse país, o Ricardo Magro, que a Polícia Federal e a Receita prenderam com 250 milhões de combustível dele contrabandeado, que foi dado à Petrobras, e ele está morando em Miami. Eu entreguei para o Trump o nome dele e a fotografia da casa dele. Quer combater o crime organizado? Me entregue os nossos que estão lá nos Estados Unidos”, disse o presidente.

Celulares de Castro

O travamento da colaboração de órgãos nos EUA, no entanto, não deve impedir que a PF chegue ao grupo político que dá sustentação às facções, em conluio com as fintechs da Faria Lima. Os cinco celulares apreendidos com Castro devem expor a teia que liga traficantes como Gabriel Dias de Oliveira, o “Índio do Lixão”, chefe do Comando Vermelho, o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, ao grupo político comandado por Flávio Bolsonaro.

Preso em setembro de 2025, TH Joias aparece em vídeo íntimo com Índio do Lixão, e em fotos sobre montanhas de dinheiro. Os dois seriam os responsáveis pela receptação dos fuzis ao Comando Vermelho.

TH Joias, segundo a PF e a Polícia Civil do Rio, usava o mandato e a blindagem do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, para atuar como uma espécie de parlamentar do CV, defendendo os interesses da organização criminosa.

Em março, a PF indiciou o ex-Secretário Estadual de Esportes do Rio de Janeiro, Alessandro Pitombeira Carracena, aliado de Flávio Bolsonaro no governo Castro.

À época, o então secretário do Consumidor, Gutemberg Fonseca, que deixou o cargo em abril para se candidatar a deputado federal pelo PL, tomou à frente e disse que a indicação de Carracena foi responsabilidade dele – e não de Flávio Bolsonaro.

Tratado como porta-voz de Flávio Bolsonaro e investigado por ser o elo do chamado “corredor do Rio”, uma ponte entre o Palácio da Guanabara e o ex-governo Bolsonaro – que passava pelo gabinete do senador – para defender interesses de Ricardo Magro, Fonseca teria se reunido com o traficante do Comando Vermelho, que cobrava indicações de cargos.

O nome do porta-voz de Flávio Bolsonaro aparece em mensagens interceptadas pela PF em que Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, assessor do ex-deputado TH Joias, marca uma reunião de Fonseca com Índio do Lixão.

Com os celulares de Castro nas mãos, a PF deve chegar a todos os nomes do grupo político que dava sustentação e municiava, com fuzis, o Comando Vermelho. E desencadear novas operações, que devem ter como alvo aliados ainda mais próximos de Flávio Bolsonaro, como Gutemberg Fonseca. COM REVISTA FORUM

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