
A China voltou a defender o princípio da “não interferência” em assuntos internos de outros países após a decisão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. A posição chinesa foi divulgada nesta sexta-feira (29) pelo Global Timesapós declaração da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning.
Pequim afirmou que sustenta de forma “consistente” o respeito à soberania dos países e a não intervenção em questões domésticas. A manifestação ocorre em meio ao aumento das tensões diplomáticas e estratégicas envolvendo a América Latina, os Estados Unidos e a crescente presença chinesa na região.
A declaração foi divulgada na mesma semana em que a China confirmou a visita oficial do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. A viagem, realizada a convite do chanceler chinês Wang Yi, está prevista para ocorrer entre os dias 31 de maio e 2 de junho.
PCC e CV passam a ser tratados como organizações terroristas
Em comunicado oficial, o governo dos Estados Unidos descreveu PCC e CV como “as organizações criminosas mais violentas do Brasil”, afirmando que ambas comandam milhares de integrantes e são responsáveis por ataques contra agentes de segurança, autoridades públicas e civis.
Marco Rubio destacou que a atuação das facções ultrapassa as fronteiras brasileiras e alcança outros países da América Latina e os próprios Estados Unidos. “O governo Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e cortar financiamento e recursos de narcoterroristas”, escreveu o secretário de Estado em uma rede social.
Segundo Washington, a medida reforça o compromisso da atual administração em desmantelar organizações criminosas e redes de tráfico que atuam no continente.
Estratégia militar e foco na América Latina
A decisão está alinhada aos documentos estratégicos divulgados pelo governo norte-americano nos últimos anos. Em janeiro, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos apresentou a nova Estratégia Nacional de Defesa, que estabelece como objetivo garantir a predominância militar e comercial do país “do Ártico à América do Sul”.
O documento afirma que os Estados Unidos estão dispostos a cooperar com países da região, mas também prevê a possibilidade de ações militares quando os interesses norte-americanos forem considerados ameaçados. A estratégia adota o conceito de “paz por meio da força”, lema utilizado pela administração Trump desde o início de seu segundo mandato.
O combate ao chamado “narcoterrorismo” ocupa posição central nesse planejamento. O governo norte-americano afirma reservar-se o direito de realizar operações diretas contra organizações classificadas como narcoterroristas em qualquer parte das Américas, além de apoiar países aliados no desenvolvimento de capacidades para desarticular grupos criminosos.
Entre as prioridades estratégicas também aparecem o combate à imigração irregular e a contenção da influência chinesa no continente.
Doutrina Monroe e disputa de influência
Outro documento divulgado pela Casa Branca, em dezembro de 2024, redefiniu as diretrizes da política externa norte-americana. A estratégia prevê maior concentração de recursos diplomáticos e militares na América Latina e no hemisfério ocidental.
Entre os objetivos anunciados estão a ampliação da presença da Guarda Costeira e da Marinha dos Estados Unidos em rotas marítimas estratégicas, o reforço das fronteiras e o combate aos cartéis de drogas, inclusive com possibilidade de emprego de força letal em determinadas situações.
O texto também menciona a intenção de “reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a predominância americana no Hemisfério Ocidental”. Criada no século XIX pelo presidente James Monroe, a doutrina ficou conhecida pelo princípio de que interferências externas no continente seriam consideradas ameaças aos interesses dos Estados Unidos.
A estratégia destaca ainda o objetivo de impedir que países considerados competidores ampliem sua presença militar ou controlem ativos estratégicos na região. O avanço da influência chinesa na América Latina é apontado como uma das principais preocupações da administração Trump.
Reação do governo brasileiro
Nos bastidores, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscou evitar que Washington adotasse a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. A avaliação de integrantes do Palácio do Planalto era de que a medida poderia abrir espaço para ações mais agressivas por parte dos Estados Unidos no futuro.



