
A Polícia Civil de São Paulo abriu um inquérito para apurar uma denúncia feita por Karina Ferreira Gama, sócia da produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A empresária acusa um prestador de serviços de crimes como extorsão e fraude processual em meio a um contrato ligado à ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidida por ela.
O caso envolve a Ultra IP, empresa contratada pelo ICB para instalar e manter links de internet em regiões vulneráveis da capital paulista. A entidade mantém contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a implantação de 5.000 pontos de Wi-Fi Livre, acordo que já é investigado pelo Ministério Público de São Paulo por suspeitas de irregularidades.
Em boletim de ocorrência obtido ple Veja, Karina afirma que, durante a execução do contrato, houve “reiterados descumprimentos, inconsistências técnicas e administrativas, apresentação de relatórios incompatíveis com a realidade da execução”, além de “resistência ao atendimento das solicitações de regularização formuladas pelo Instituto”.
Segundo a empresária, a Ultra IP teria interrompido cerca de 800 links de internet, atingindo comunidades beneficiadas pelo programa e causando “prejuízo à continuidade do serviço e à população beneficiária”. O contrato firmado com a prefeitura previa a instalação de 5.000 links de internet na cidade.

Na denúncia apresentada à polícia, Karina também acusa William Silva Ferreira, dono da Ultra IP, de cobrar R$ 2,5 milhões por meio de “pressões indiretas, ameaça de exposição midiática, divulgação de informações internas e outros elementos documentais que, segundo sua narrativa, indicariam atuação dolosa e premeditada”.
Ao instaurar o inquérito em 5 de maio, o delegado Nelson de Camargo Rosa, do 78º DP, nos Jardins, citou ainda a suspeita de tentativa de deslocamento de responsabilidade.
“Consta, ainda, que a empresa investigada teria adotado condutas destinadas a deslocar a responsabilidade pelos fatos, inclusive mediante ajuizamento de ação de produção antecipada de provas, supostamente com a finalidade de conferir aparência de legitimidade à versão apresentada e influenciar a formação do contexto probatório”, afirmou.
William Silva Ferreira disse à Veja não ter conhecimento do inquérito, negou as acusações e afirmou que já havia acionado a Justiça por não ter recebido pelo serviço prestado ao ICB. Karina Gama também foi procurada por meio do Instituto Conhecer Brasil, mas não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
O contrato entre a prefeitura e o ICB também é alvo de investigação do MP-SP desde janeiro, após denúncia do vereador Nabil Bonduki (PT). O parlamentar apontou supostos indícios de irregularidades no chamamento público, ausência de concorrência e possível superfaturamento de mais de R$ 27 milhões.
A prefeitura afirma que a contratação ocorreu por chamamento público “transparente e sem contestações” e que “a organização social cumpriu todas as exigências previstas no edital, e a prestação do serviço segue normalmente”.
Karina também é a única sócia da Go Up Entertainment LTDA, produtora de “Dark Horse”. O filme entrou na mira da Polícia Federal após áudios revelados pelo The Intercept Brasil mostrarem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedindo recursos a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para concluir a produção.



