
O Banco Master desembolsou R$ 27,283 milhões ao portal Metrópoles entre 2024 e 2025, em uma série de transações que chamaram a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Um relatório do órgão aponta movimentações financeiras inusitadas e com indícios de benefício a terceiros, levantando dúvidas sobre a real natureza desses pagamentos.
Segundo informações divulgadas pelo jornal Estado de S. Paulo, os valores enviados à Metrópoles Marketing e Propaganda LTDA foram seguidos de débitos imediatos para outras empresas ligadas à família do ex-senador Luiz Estevão, controlador do veículo de comunicação. Essa rapidez e o volume das transações foram classificados como incompatíveis com o faturamento médio mensal da empresa receptora.
A Caixa Econômica Federal, responsável pelas comunicações ao Coaf, destacou o recebimento de transferências de valores inusitados e a movimentação de recursos em benefício de terceiros, além de transações com pessoas politicamente expostas. O padrão observado gerou alertas sobre a possível configuração de movimentação de recursos em benefício de terceiros.
Cronologia de pagamentos e descompasso com visibilidade comercial
Os repasses financeiros do Banco Master ao Metrópoles se intensificaram em um período crucial para a instituição bancária. Em março de 2025, o Banco Master tentou vender a instituição ao BRB, operação que posteriormente foi cercada de investigações por suspeita de fraude financeira. Em novembro do mesmo ano, o banco teve sua liquidação decretada pelo Banco Central, com seu controlador, Daniel Vorcaro, preso.
Luiz Estevão contesta a leitura de irregularidade, afirmando que os pagamentos recebidos eram referentes a patrocínios do Will Bank, então pertencente ao Master, para a transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro de 2025 pelo Metrópoles, além da venda dos naming rights da competição. Ele alega que o banco ainda está em débito com o veículo.
No entanto, a cronologia dos fatos levanta questionamentos. Os repasses começaram em janeiro de 2025, mas a Série D do Brasileirão só teve início em 19 de abril. A exibição da marca do Will Bank nas transmissões, segundo reportagem, só ocorreu três meses após o início do torneio, e o anúncio oficial do acordo entre Metrópoles e CBF só foi feito em julho. A implementação dos naming rights, com a logomarca nos estádios, também ocorreu tardiamente, a partir de 26 de julho.
Hipóteses sobre o real objetivo dos repasses financeiros
Diante das inconsistências apontadas pelo Coaf e do descompasso temporal entre os pagamentos e a entrega da visibilidade comercial, cresce nos bastidores a interpretação de que os aportes financeiros do Banco Master ao Metrópoles podem ter tido uma finalidade além da relação comercial formal.
Uma das hipóteses mais consideradas é a de que os repasses teriam contribuído para um alinhamento editorial do veículo de comunicação, visando evitar resistência à tentativa de venda do Banco Master ao BRB. Essa leitura se fortalece pelo contexto dos pagamentos, que ocorreram em um momento de escrutínio público e potencial controvérsia política e institucional para a operação.
O padrão descrito pelo Coaf, com movimentações atípicas e a dispersão imediata dos recursos para empresas ligadas à família de Luiz Estevão, intensifica os questionamentos sobre o real objetivo desses aportes. Embora não haja comprovação formal, o fluxo financeiro sugere uma possível estratégia para facilitar a negociação da venda do banco.
Defesa de Luiz Estevão e questionamentos persistentes
Luiz Estevão defende a legalidade das operações, declarando que os recursos recebidos são de sua propriedade e que ele pode fazer com eles o que desejar, incluindo transferi-los para outras empresas ou adquirir bens. Ele também refuta a ideia de que os valores contratados foram superdimensionados, afirmando que o banco deixou de cumprir integralmente os pagamentos.
Apesar das explicações, o caso segue cercado de questionamentos, especialmente devido ao padrão financeiro identificado e ao contexto em que as transferências foram realizadas. A investigação do Coaf e as circunstâncias da tentativa de venda do Banco Master ao BRB continuam a gerar debates sobre a transparência e a ética nas transações financeiras e na relação entre instituições bancárias e veículos de comunicação.



