GEOPOLÍTICA

Desdolarização no Brics: Rússia quer criar sistema de pagamentos independente com Brasil

Brasil e Rússia, dois dos membros originários do Brics, estariam dialogando acerca da criação de uma infraestrutura independente para pagamentos entre bancos a fim de facilitar suas relações bilaterais.

O tema foi discutido durante um encontro em Brasília, que marcou a 13ª Reunião da Comissão Intergovernamental Brasil–Rússia de Cooperação Econômica, Comercial, Científica e Tecnológica (CIC), realizada no final de maio com a presença do ministro do Desenvolvimento Econômico da Federação da Rússia, Maxim Reshetnikov.

Segundo informações do governo russo, entre os temas discutidos no encontro, como a cooperação em áreas estratégicas e o comércio bilateral, esteve também a iniciativa conjunta para uma estrutura financeira própria para os países, numa tentativa de criar mecanismos alternativos às instituições tradicionais e facilitar pagamentos bilaterais.

Desde 2022, diversos bancos russos foram proibidos de operar no SWIFT, a Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais, uma das mais relevantes redes de comunicação para transferências interbancárias do mundo.

A proibição é um marco das sanções ocidentais ao país, tornadas mais graves desde o início da guerra contra a Ucrânia.

Além dos custos operacionais maiores, essa proibição gerou à Rússia a necessidade de operar, com seus parceiros comerciais mais próximos, sobretudo no âmbito do Brics, projetos de desdolarização.

Um deles foi, com o Irã, seu aliado no Cáucaso, a integração entre as redes russa e iraniana de cartões Mir e Shetab, que permite transações diretas e saques em moedas locais para facilitar o comércio e o turismo.

No âmbito do Brics, o país tem liderado os diálogos, desde a cúpula do bloco em Kazan, em 2024, para a introdução do BRICS Pay, sistema de pagamentos digitais inspirado no brasileiro para ampliar o uso de moedas locais nas transações instantâneas entre membros.

Os números do comércio bilateral entre Brasil e Rússia levantam o interesse brasileiro em aprofundar a cooperação com Moscou, embora o Brasil se mantenha mais cauteloso em relação aos projetos com potencial desdolarizante.

Segundo dados divulgados durante o encontro, as transações comerciais entre Brasil e Rússia alcançaram a marca de quase US$ 11 bilhões em 2025, com exportações nacionais superando US$ 1 bilhão e importações acima de US$ 9 bilhões.

Da Rússia, o Brasil importa principalmente fertilizantes minerais para a agricultura, o que corresponde a cerca de 26% do total do comércio.

Por outro lado, exporta para o parceiro carne e café, que cresceram, respectivamente, 45% e 73% ao longo do último ano.

O governo russo afirmou que agora discute simplificar os processos de registro de medicamentos e ampliar a cooperação de alta tecnologia com o Brasil.

Embora ainda não tenham sido divulgados detalhes técnicos do modelo de intercâmbio financeiro em discussão com o Brasil, ele pode envolver integração parcial com o Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras (SPFS), um sistema russo criado como alternativa ao SWIFT, e o uso de moedas locais para o comércio bilateral em substituição ao dólar.

O SPFS, desenvolvido após as sanções iniciais à Rússia, em 2014, funciona com ordens de pagamento, assim como o SWIFT, e criptografa os dados bancários para maior segurança.

A mensagem de pagamento é enviada ao servidor operado pelo Banco Central da Rússia, e o sistema valida a autenticidade dos dados para retransmiti-la com segurança aos bancos, que liquidam a operação.

Com Revista Fórum

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