POLÍTICA

Agressão de bolsonaristas, chuva de ovos e bloqueio da PM: o ato de 30 mil estudantes contra Tarcísio

Manifestantes no Largo da Batata em ato contra Tarcísio de Freitas. Foto: Miguel Worcman

Por Miguel Worcman, escritor, repórter e estudante de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Estudantes, professores e funcionários das universidades estaduais de São Paulo fecharam na quarta-feira (20) a Avenida Brigadeiro Faria Lima, principal polo financeiro da América Latina, em ato contra as políticas do governador de SP, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A marcha, que foi até o Palácio dos Bandeirantes, sede do poder do Estado, foi a maior manifestação dos ciclos de mobilização das greves nas universidades estaduais até agora. Estimativas dos organizadores apontam que cerca de 30 mil pessoas estiveram presentes. Caravanas de ônibus com estudantes da UNESP e da UNICAMP saíram de suas cidades para aderir à marcha.

O deslocamento até a capital, no entanto, foi marcado por momentos de tensão. Parte das caravanas foi interceptada e submetida a revistas da Polícia Militar, o que atrasou a chegada dos manifestantes. Além de universitários, a marcha contou com estudantes secundaristas, professores da rede pública, servidores das universidades, deputados estaduais e lideranças de movimentos sociais. Entre as principais pautas, estavam a denúncia contra a precarização do ensino público, as privatizações e a atuação violenta da PM na desocupação da reitoria da USP.

Ainda na concentração do ato, o ex-deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos), rodeado de seguranças, apareceu nos arredores do Largo da Batata, gravando vídeos enquanto provocava e xingava os manifestantes. Os grevistas buscavam retirar os tumultuadores do local, quando Douglas deu o sinal para que seus seguranças avançassem sobre os estudantes. Vídeos mostram um dos seguranças desferindo socos e chutes. Após as agressões, o grupo deixou o local e a marcha seguiu em direção ao Palácio dos Bandeirantes.

A caminhada até o palácio durou mais de duas horas, parando o trânsito na Faria Lima. Na saída da avenida, quando os manifestantes passavam perto de um edifício residencial, alguns moradores atiraram ovos de suas sacadas em direção aos estudantes.

Baterias universitárias davam ritmo à marcha, enquanto cantos eram puxados pelo carro de som, tais como: “Trabalhador, olha para cá! Eu tô na rua pro seu filho estudar!”. A manifestação era composta por um mosaico de diferentes entidades estudantis. Pesquisadores indígenas, estudantes de artes com balaclavas coloridas segurando fantoches e coletivos trans se misturavam em um caleidoscópio de cartazes, faixas, gritos e balões.

Estudantes de Artes Dramáticas em ato na Faria Lima. Foto: Lau Caruccio

Ao chegarem às proximidades do Palácio dos Bandeirantes, os manifestantes encontraram um amplo bloqueio montado pela Polícia Militar. Os agentes informaram que havia ordens para impedir o avanço da marcha até a sede do governo estadual. A operação reuniu efetivos da tropa de choque e dezenas de policiais da cavalaria, que cercaram os acessos ao palácio.

Dany Oliveira, diretora do DCE Livre da USP (Diretório Central dos Estudantes), relata a indignação com o bloqueio da PM: “Qual é o respaldo legal que eles estão dando de bloquear uma manifestação pacífica? Dentro da nossa Constituição, nós temos direito à manifestação. Não faz sentido um governador que foi eleito se trancar dentro de um palácio e nem sequer receber a sua população”.

Estudantes debatem com policiais em frente ao bloqueio da PM pedindo a passagem do ato. Foto: Miguel Worcman

Uma comissão composta de dois representantes dos diretórios universitários das três estaduais paulistas, depois de muitas negociações, foi recebida dentro do palácio. Representantes do governo (uma vez que Tarcísio não se encontrava no local) conversaram com a delegação na recepção do prédio e afirmaram não terem conhecimento suficiente a respeito das reivindicações universitárias, de modo que qualquer tipo de diálogo seria inconclusivo.

Os manifestantes queimaram bonecos com a cara do governador e secundaristas atearam fogo nas apostilas do Governo de São Paulo.

A marcha ocorreu em um cenário de agravamento das tensões entre estudantes e o governo do estado. Os estudantes da USP, que estão em greve há mais de um mês por melhores condições de permanência na universidade, ocuparam a reitoria do Campus no dia 7 de maio, após a recusa em dialogar por parte do reitor.

Depois de dois dias de ocupação, os grevistas foram surpreendidos pelo batalhão de choque da polícia militar no meio da madrugada do Dia das Mães, que expulsaram os alunos do prédio com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo.

Imagens da desocupação mostram a PM realizando um corredor polonês na entrada do prédio, espancando os estudantes, que saíam apavorados. Diversos alunos ficaram feridos e dois estudantes tiveram seus braços quebrados. Após a ação truculenta da polícia, docentes da USP e de diversas outras universidades publicaram notas de repúdio ao acontecido.

A Reitoria alegou que não foi comunicada sobre a ação e deu a entender que a ordem para a entrada da PM partiu diretamente do Governo do Estado. Questionado sobre a ação da PM no campus, Tarcísio elogiou a ação da PM e disse que “a polícia agiu como tinha que agir, dentro dos limites da legalidade” e que a universidade “não pode ser um espaço de baderna, depredação e destruição de patrimônio público.”

Nossa equipe esteve presente na marcha e acompanhou de perto os acontecimentos. Em entrevista a nossa reportagem, Vivian Mendes, presidente estadual do partido Unidade Popular (UP) e pré-candidata ao governo de São Paulo, explica como esse ato vai mais além do que a defesa da universidade pública.

“Nós estamos aqui pra mostrar que essa luta é política. Não é uma luta contra o reitor da USP, é uma luta contra o avanço do fascismo.  Nós não podemos nos apegar só com os mandantes de Tarcísio. Nós precisamos pedir a cabeça do chefe. Tarcísio de Freitas é o expoente do fascismo aqui no nosso estado. Quem comanda a polícia militar que está matando cada dia mais, é Tarcísio de Freitas. E ele precisa ser responsabilizado pelos crimes que está cometendo”.

Vivian Mendes (centro), ao lado de outros dois militantes, na marcha

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