AMÉRICA LATINAMUNDO

Trump não pode ser enfrentado pelo caminho da negociação, diz Breno Altman

A escalada de tensão na América do Sul ganhou contornos dramáticos após uma operação militar que, segundo o jornalista Breno Altman, foi coordenada pelos Estados Unidos e culminou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Em entrevista concedida durante uma live transmitida no YouTube, Altman afirmou que o episódio deve ser compreendido como “um ataque imperialista brutal” e um marco da nova estratégia de Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — para retomar o controle político sobre a América Latina. 

Altman relatou que a ação teria ocorrido por volta das 3h da manhã em Caracas (4h no Brasil), durando cerca de 50 minutos a uma hora, com ataques simultâneos contra instalações militares e civis em várias cidades do país. “O sequestro do presidente Nicolás Maduro faz parte, talvez seja o elemento principal desse processo”, afirmou. Entre os alvos citados por ele estavam a base aérea de La Carlota e o Forte Tiuna, considerado um dos principais complexos militares do país e que inclui área residencial onde o próprio Maduro viveria.

Sequestro de Maduro e exigência de provas de vida

Segundo o jornalista, Maduro estaria sob custódia das forças norte-americanas, e o governo venezuelano exige provas de que ele está vivo. “É taxativo, houve o sequestro do presidente Nicolás Maduro, ele se encontra nas mãos das forças de segurança dos Estados Unidos”, declarou Altman. Ele afirmou ter recebido a confirmação diretamente de Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela, ainda nas primeiras horas após o episódio. “Testemunhas que estavam presentes no local do sequestro do presidente Nicolás Maduro atestam que quando ele foi detido, ele estava vivo. E por isso há uma exigência de provas de vida do presidente Maduro nesse momento”, disse.

Altman avaliou que, apesar da gravidade do ataque, não havia sinais públicos de divisão interna no governo venezuelano. A reação, segundo ele, vinha sendo “cautelosa”, diante de um cenário ainda instável e com informações incompletas nas primeiras horas.

Nota de Lula é “razoável”, mas evita apontar o agressor

Questionado sobre a nota divulgada pelo presidente Lula, Altman disse considerá-la “razoável”, mas observou que o texto evita identificar os Estados Unidos como responsáveis diretos pelo ataque. “Não sei se vocês repararam que a nota não diz que foram os Estados Unidos que agrediram a Venezuela. Os Estados Unidos não são citados na nota do presidente Lula”, criticou. Ele também apontou como inadequado o uso do termo “captura” para se referir ao episódio envolvendo Maduro. “A captura está travestida potencialmente de alguma legalidade. É diferente de um sequestro, que é o que aconteceu”, afirmou.

Ainda assim, Altman reconheceu que se trata de um documento de condenação à agressão e que poderia sinalizar mudança de postura do governo brasileiro diante da crise venezuelana.

“Trump ameniza contradição com a China e mira a América Latina”

No centro da análise de Altman está a percepção de que Trump priorizou a América Latina como área estratégica — inclusive adiando choques diretos com a China para concentrar energia política e militar no “controle do continente”. “Basta ler o documento lançado há poucas semanas pelo Departamento de Estado, popularmente chamado de corolário Trump para a doutrina Monroe 2.0”, disse. Segundo ele, o texto revela que os EUA buscam retomar influência regional “pelo bem ou pelo mal”, por meio de eleições, golpes ou ação armada.

Altman afirmou que, diante dessa estratégia, “Trump não pode ser enfrentado pelo caminho da negociação”, porque os Estados Unidos tenderiam a avançar “um por um”, sempre com a promessa de que o alvo atacado será o último. Na visão do jornalista, essa lógica torna ilusória a aposta em uma política de acomodação.

Brasil “precisa preparar o povo para a tempestade”

A fala mais contundente de Altman em relação ao Brasil foi o alerta de que o ataque à Venezuela tem um recado direto ao governo Lula e ao processo eleitoral brasileiro. “O governo Trump já começou a interferir nas eleições brasileiras”, afirmou. Para ele, a ofensiva seria uma chantagem geopolítica: “Tratem de eleger um governo amigável à Casa Branca. Porque o que espera vocês é isso”, disse, interpretando o ataque como demonstração de força.

Diante desse quadro, Altman defendeu que o Brasil precisa rever sua política externa e preparar a sociedade para um período de instabilidade. “O Brasil precisa, sem abrir mão das negociações que são possíveis, sem abrir mão do discurso da defesa da paz e da soberania, preparar o povo para a tempestade que se aproxima”, afirmou, repetindo o alerta de que “não vivemos mais tempos normais”.

Crítica a erros do Brasil com a Venezuela e o veto no Brics

Altman atribuiu parte da fragilidade atual da Venezuela a decisões tomadas pelo Brasil nos últimos meses. Ele criticou a “ruptura” do governo brasileiro com Caracas, citando dois pontos: a não aceitação do resultado eleitoral venezuelano e o veto à entrada do país no Brics. “Fragilizou a integração latino-americana, desmontou a histórica aliança entre o Brasil e o chavismo, debilitou as condições de resistência da própria Venezuela”, declarou.

Para Altman, essa política “tem que ser retificada”, e a nota de Lula poderia ser um primeiro sinal. Em sua visão, o Brasil é o único país com peso político, econômico e histórico capaz de liderar a unidade regional contra a escalada dos EUA. “Somente o Brasil tem as condições de liderar essa unidade latino-americana contra a nova fase da doutrina Monroe”, afirmou.

Resistência não é guerra: “há muitos meios-tons”

Ao ser confrontado com a ideia de que a América Latina não tem força militar para enfrentar os Estados Unidos, Altman afirmou que essa não é a questão central. “Ninguém em sã consciência acredita que os Estados Unidos possam ser enfrentados militarmente pela América Latina”, disse. Mas defendeu que existe uma ampla gama de instrumentos de resistência entre “emitir notas” e “responder com guerra”. Ele citou interesses econômicos norte-americanos na região e argumentou que restrições coordenadas poderiam ser usadas como arma diplomática.

Altman também destacou que a fragmentação regional favorece a ofensiva imperialista. “A divisão dos países da América Latina cria um ambiente propício para a ação imperialista”, disse, lembrando o princípio histórico do “dividir para governar”.

Cautela nas conclusões, mas clareza sobre a agressão

Ao final, o jornalista insistiu que o cenário ainda é “obscuro” e exige prudência jornalística, porque muitas informações não estão disponíveis imediatamente após um episódio dessa magnitude. Ainda assim, disse que alguns elementos são inequívocos. “O que não é obscuro é a ação imperialista dos Estados Unidos, o desrespeito à autodeterminação da Venezuela, a agressão ilegal contra o país vizinho, o sequestro de Nicolás Maduro e a óbvia necessidade dos governos repudiarem e reagirem”, concluiu.

Ele também leu, ao vivo, uma nota atribuída à China condenando “o uso flagrante da força” pelos Estados Unidos e defendendo o respeito à soberania venezuelana, reforçando que a crise tende a repercutir além da América Latina.

O episódio, ainda em desdobramento, reabre o debate sobre soberania, integração regional e o papel do Brasil diante de uma ofensiva que, segundo Altman, não se encerrará na Venezuela. Para ele, a lição central é direta: “Se ficarmos passivos, vão avançar. Não podemos rifar a Venezuela. A América Latina precisa ficar unida.” Com Brasil 247

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