
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, participou nesta quarta-feira (19) de uma entrevista coletiva com canais da mídia independente. O evento, promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, contou com a presença do DCM e de outros veículos.
Na pauta, foram abordados temas como os ataques de Donald Trump, vacinação, os programas Mais Médicos e Agora Tem Especialistas, além dos avanços recentes do SUS após o período marcado pelo negacionismo de Jair Bolsonaro.
AS SANÇÕES DOS EUA
Vejo esses ataques covardes, sobretudo contra mim, Mozart Sales e Alberto Kleiman — três pessoas muito ligadas ao Mais Médicos — em duas dimensões. Primeiro, como parte da postura do governo Trump de atacar a saúde. É simbólico. Ele atacou a OMS; estávamos em Genebra e foi absurdo. Nunca imaginei ver algo assim. Ele retirou 600 milhões de dólares da contribuição voluntária dos EUA ao fundo internacional de vacinas da OMS. Por sorte, a China imediatamente desembolsou 500 milhões de dólares para manter o programa.
Trump atacou pesquisadores norte-americanos que estudavam vacinas, cortou recursos de universidades, afastou o diretor do Instituto Nacional de Saúde dos EUA — figura histórica no combate ao HIV/Aids — e rasgou contratos de pesquisa sobre RNA mensageiro. O ataque ao Mais Médicos se insere nesse mesmo contexto.
A parceria com médicos cubanos existe em mais de 50 países. No Brasil, eles saíram em 2018, mas Trump não sancionou nenhum outro país que mantém esse acordo. Ele ataca um ministro do presidente Lula para tentar nos intimidar e nos fazer baixar a cabeça. É uma covardia absurda. O que minha filha de dez anos representa de risco ao império dos EUA para não poder entrar no país? Não que ela tivesse visto para isso, que fique claro. Meus familiares que moram lá virão para cá, já que não podemos ir para lá.
Não vamos recuar um centímetro na defesa do Mais Médicos, da saúde pública ou da posição do Brasil nos organismos multilaterais. Trump tentou impedir a aprovação do novo acordo pandêmico de compartilhamento de informações na OMS, mas o Brasil tem papel de liderança nesse processo — e não recuaremos um milímetro.
O TARIFAÇO NA ÁREA DA SAÚDE
A relação da balança comercial Brasil-EUA já torna absurdos os argumentos de Trump para impor o tarifaço. Na área da saúde é ainda mais ridículo: exportamos cerca de 2 bilhões de dólares e importamos 4,2 bilhões.
Encaro essa situação como oportunidade para que governo, sociedade e empresários — brasileiros e estrangeiros que investem aqui — se mobilizem e reduzam a dependência, não apenas em relação aos EUA, mas a qualquer país.
Desde a pandemia há um esforço global de reorganização das cadeias de produção em saúde — insumos, tecnologia, medicamentos, equipamentos — porque ninguém quer ficar dependente de uma única região do mundo.
O QUE CAUSA MAIS INVEJA NOS EUA: O PIX OU O SUS?
Acho que estão em disputa. Desde o início de seu governo, Trump se mostrou inimigo da saúde global. Inimigo do SUS, da OMS, dos fundos internacionais de produção e vacinas.
Atualmente, os EUA enfrentam o maior surto de sarampo deste século. Em julho, foram registrados 7,2 mil casos no continente americano, sendo pelo menos 7 mil apenas no hemisfério norte.
MELHORIAS NO SUS
Há quinze anos, quando fui ministro pela primeira vez, tínhamos cerca de 200 milhões de brasileiros e quase 500 milhões de números de cartão SUS.
O SUS, nos anos 1990, fez esforço para identificar pessoas, controlar melhor os recursos e melhorar o atendimento. Não havia cadastro único nem armazenamento em nuvem. Isso foi conquista do presidente Lula. O governo FHC tentou um projeto de cartão SUS semelhante a cartão de crédito, mas fracassou após gastar muito dinheiro.
Na época, minha primeira medida foi vincular o cartão SUS ao CPF. Muitas vezes, sem conectividade, profissionais emitiam novos cartões para garantir o atendimento. Isso gerava duplicidade. Depois, estendemos cartões do SUS também a usuários de planos privados.
Com o golpe, veio o desmonte do SUS. Agora, de volta ao ministério, identifiquei que apenas 8 milhões dos 272 milhões de cartões não estão vinculados a um CPF. Ou seja, a grande maioria já está integrada. Propus, então, consolidar essa integração permanente.
Isso permitirá maior controle do uso de recursos, compensação entre municípios e estados, fiscalização da distribuição de medicamentos e serviços, além de combate ao desperdício e à corrupção. Também possibilitará planejamento mais eficiente entre União, estados e municípios.
O cruzamento de dados com CadÚnico, Receita, INSS e outros sistemas trará ganhos enormes. E permitirá avanços na digitalização, com prontuários eletrônicos e acompanhamento histórico dos pacientes.
Essa base de dados é um terreno fértil para pesquisa clínica, investigação, avaliação de medicamentos e tecnologias de saúde. Significa reduzir a dependência externa e consolidar o Brasil como protagonista nesse campo.
AGORA TEM ESPECIALISTAS
O programa Agora Tem Especialistas é a maior mobilização já feita na saúde pública e privada para reduzir o tempo de espera por atendimento médico especializado.
Muitos pacientes aguardam por cirurgias eletivas, ressonâncias ou tomografias, e esse represamento se agravou durante a pandemia, que se estendeu além do necessário devido à condução criminosa do governo Bolsonaro.
O programa mobiliza o setor privado, trocando dívidas com a União por atendimentos, exames e cirurgias — modelo semelhante ao Prouni. No setor público, implantamos o terceiro turno em ambulatórios, radioterapia, ressonância e tomografia.
Também usamos a rede privada para reduzir filas do SUS, já que ali estão 30% dos médicos especialistas e a maioria dos equipamentos de alta complexidade.
A meta para agosto era iniciar os atendimentos desses pacientes, o que já vem ocorrendo. Outras etapas incluirão carretas móveis em regiões com baixa oferta de serviços, estruturas de saúde em paradas de caminhoneiros e mutirões adaptados a comunidades indígenas.
CAMPANHA DE VACINAÇÃO
Minha missão com o presidente Lula é reduzir o tempo de espera no SUS e derrotar o negacionismo que tanto prejudicou o Brasil e o mundo na pandemia.
Estamos recuperando a cobertura vacinal ano a ano. O programa Saúde na Escola leva vacinação às unidades escolares. Pais não podem negar aos filhos o que eles próprios receberam.
A campanha contra a Influenza é exemplo. No Rio Grande do Sul, 65% das mortes foram de pessoas que não se vacinaram.
COMO COMBATER A EXTREMA-DIREITA NEGACIONISTA?
O embate político precisa ser permanente. Vivemos um momento histórico que chamo de ‘SUS pós-pandêmico’.
Temos três frentes: reduzir filas de agendamento, preparar a saúde para mudanças climáticas e novas pandemias, e combater o negacionismo.
Esse embate será feito contra Bolsonaro e seus aliados, que tiveram papel central na pandemia. E venceremos, porque há muito a comparar: avanço no atendimento, cobertura vacinal, acesso a medicamentos, recuperação do Mais Médicos e enfrentamento ideológico ao negacionismo.
Saúde é uma das marcas mais bem avaliadas do governo. O Farmácia Popular e o Samu têm mais de 90% de aprovação.
Não tenho dúvida de que o governo Lula é superior ao de Bolsonaro em todas as áreas. Mas é na saúde que vamos isolar a extrema-direita e derrotar o bolsonarismo.