
O ex-governador Ricardo Coutinho (PT) está de volta à cena política paraibana, depois de duas derrotas (ao Senado e à prefeitura de João Pessoa) e bafejado por decisões judiciais que sustaram processos enfrentados no bojo da Operação Calvário. Na disputa de 2026, lutará para conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados, posto que nunca exerceu e que tem como concorrente no partido o atual deputado Luiz Couto, que tentará a reeleição.
Coutinho, malgrado revezes e polêmicas que afetaram ou desgastaram sua biografia, mantém-se como um líder político qualificado, que dá nível e conteúdo ao debate dos principais problemas do Estado e do país, embora enfrente eventuais restrições dentro da legenda e do campo da esquerda, como reflexo de embates travados no passado até mesmo de duros enfrentamentos para assegurar lugar de fala e de intervenção nas discussões que são agitadas na conjuntura.
Governador por duas vezes, pelo PSB, Ricardo deu partida à militância política como vereador na Capital, articulando-se com movimentos sociais e sindicais que então se encontravam em plena efervescência na realidade paraibana e nacional. Elegeu-se deputado estadual, ocupou por duas vezes a prefeitura de João Pessoa e ascendeu ao Palácio da Redenção em 2010, sendo reeleito em 2014.
Surpreendeu os meios políticos ao decidir permanecer até o último dia do segundo mandato no exercício do cargo de governador, abrindo mão de uma candidatura ao Senado, não obstante pesquisas preliminares de intenção de voto detectassem favoritismo no páreo. A versão que circulou foi a de que Ricardo resolvera permanecer com dois objetivos: eleger João Azevêdo, seu super-secretário de Infraestrutura, como sucessor, e contribuir para derrotar o senador Cássio Cunha Lima na reeleição deste.
Os dois feitos foram alcançados, sendo que João Azevêdo foi eleito em primeiro turno, derrotando o ex-governador José Maranhão e o candidato Lucélio Cartaxo, irmão gêmeo do ex-prefeito Luciano Cartaxo.
O rompimento político entre Ricardo Coutinho e João Azevêdo verificou-se com rapidez nos primeiros meses da nova administração que havia se instalado. Conhecido pelo estilo personalista e centralizador, Coutinho se desentendeu com João na formação do secretariado deste, supostamente por insistir em manter na equipe pessoas remanescentes das suas gestões e de sua absoluta confiança.
Aliados de João Azevêdo comentavam, na época, que o ex-governador dava a impressão de que havia “emprestado” a cadeira do poder ao novo gestor, ignorando que este se submeteu ao crivo das urnas e, apesar de neófito na disputa de mandatos eletivos, tornou-se bem sucedido, tanto que foi reeleito, em 2022, no segundo turno, com a hostilidade de Ricardo. As rusgas entre os ex-aliados se estenderam, ainda, ao controle do diretório estadual do PSB, arrastando-se uma queda-de-braço que, ao final, foi vencida por João Azevêdo.
A opção de Ricardo foi a de fazer o caminho de volta ao Partido dos Trabalhadores, de onde migrara por não ter tido apoio para se candidatar a prefeito de João Pessoa em 2004. Coutinho granjeou prestígio nacional junto a cúpulas partidárias e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela firmeza na tomada de posições em temas sensíveis ou cruciais do cenário político brasileiro, com o qual sempre esteve antenado.
Solidarizou-se com Lula no episódio da sua prisão na Polícia Federal em Curitiba, acolheu a então presidente Dilma Rousseff no Espaço Cultural em João Pessoa para que ela fizesse uma defesa pública aos paraibanos diante do processo de impeachment que acabou sendo concretizado e que, por bastante tempo, o próprio Lula e o PT trataram como um “golpe”, espécie de quartelada parlamentar engendrada pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, em suposta articulação com o vice-presidente da República Michel Temer.
O impeachment acabou obtendo apoio de parlamentares de outros partidos que ainda agora perfilam ao lado do presidente Lula em mais uma campanha deste à reeleição.
O retorno do ex-governador à arena política na Paraíba oxigena um cenário que estava fadado à pasmaceira no debate de ideias ou propostas. Ricardo tem batido forte na dependência dos atuais parlamentares aos recursos oriundos de emendas individuais ou de bancadas, advertindo que, com isto, deixam de propor alternativas para os desafios que precisam ser equacionados e nivelam-se ao campo raso da política-partidária.
Em relação à sucessão estadual já deixou claro que não se sente representado pelas candidaturas de Cícero Lucena (MDB) ou de Lucas Ribeiro (PP), mas admite fazer declaração de voto seguindo orientação expressa do presidente Lula, com quem tem livre trânsito. Para o Senado, Ricardo manifesta apoio crítico à candidatura de Veneziano Vital do Rêgo à reeleição, mas já disse que tem objeção de consciência a votar no governador João Azevêdo.
Veneziano e João são os candidatos declarados de Lula ao Senado na Paraíba. Há uma grande expectativa sobre a atuação de Ricardo Coutinho na disputa eleitoral. Mesmo não ocupando cargo de direção no PT estadual, ele tem grande influência junto à cúpula de Brasília e ao Palácio do Planalto e é respeitado por expoentes estaduais do PT, legenda em que é verdadeiro “P.h.D”. Com Polemica Paraíba Por Nonato Guedes



