
Cada vez mais brasileiros estão antecipando o retorno ao país diante das novas regras de imigração no Reino Unido. O endurecimento das exigências, anunciado em maio pelo primeiro-ministro Keir Starmer, inclui a obrigatoriedade de testes de inglês para requerentes e dependentes, a ampliação do tempo mínimo para solicitar residência permanente de cinco para dez anos e o aumento do salário anual exigido para obtenção do visto de trabalho, que passou de £ 38.700 para £ 41.700 (cerca de R$ 305 mil).
O impacto já é sentido. Segundo o Home Office, o número de brasileiros que retornaram do Reino Unido saltou de 620 em 2021 para 4.850 em 2024, colocando o Brasil como a terceira nacionalidade que mais voltou no período, atrás apenas de Índia e Albânia. Só no primeiro semestre de 2025, já foram registrados 3.049 retornos, entre deportações, saídas voluntárias e espontâneas.
Entre os casos está o de Sara Baptista, jornalista que concluiu mestrado em Manchester e planejava permanecer no país, mas viu inviabilizada sua permanência após investir quase £ 2.800 (R$ 20,8 mil) no visto de graduação. Já Thabata Alves, consultora em Londres, afirma que a ampliação do tempo mínimo para residência permanente paralisou seus planos, podendo levá-la a voltar ao Brasil ou migrar para outro país europeu.
O governo britânico defende que as medidas são necessárias para conter a migração líquida, que atingiu mais de 800 mil pessoas entre 2022 e 2023, contra médias anuais de 200 mil a 300 mil antes do Brexit. Starmer afirmou que a meta é “retomar o controle das fronteiras” e evitar que o país se torne “uma ilha de desconhecidos”.

Outro reflexo das mudanças é o aumento no número de pedidos de asilo de brasileiros. Até 2018, não passavam de 40 por ano, mas em 2024 chegaram a 2.640 — apenas 19 foram aceitos. Especialistas apontam que muitos recorrem ao recurso para permanecer legalmente no país, já que a lei permite aguardar a decisão final em território britânico, mesmo sem garantia de sucesso.
Para pesquisadores, como Nuni Jorgensen, da Universidade de Oxford, a taxa de retorno dos brasileiros é alta em relação ao tamanho da comunidade, e reflete tanto a rigidez das novas normas quanto o sentimento de falta de pertencimento. Muitos dos que retornam relatam frustração após anos de investimento pessoal e financeiro, em um cenário que indica portas cada vez mais estreitas para estrangeiros que buscam construir carreira no Reino Unido.