
infantaria digital que impulsionou a marcha de Nikolas Ferreira (PL-MG) de Paracatu (MG) a Brasília, em janeiro deste ano, não operou de forma autônoma. Novo desdobramento da investigação da Fórum mostra que o núcleo de comando do “Acorda Brasil” reuniu personagens ligados ao entorno político de Pablo Marçal (PRTB), grupo já associado a estratégias agressivas de cortes, viralização em massa e questionamentos sobre estruturas paralelas de difusão de conteúdo.
A tropa de Nikolas não apenas reproduziu táticas que ganharam notoriedade no universo de Marçal. Ela foi conduzida por operadores que já circulavam nesse mesmo ambiente político-digital. A migração dessa equipe expõe o grau de profissionalização de uma estrutura de propaganda da extrema direita, em que a criação de páginas de cortes, a multiplicação de contas e o recrutamento de clipadores passam a funcionar como método replicável de ocupação coordenada das redes.
O campeonato de cortes, em que o coach concedia prêmios em dinheiro para clipadores que viralizassem seus vídeos nas redes, foi uma das causas citadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para condenar Marçal à inelegibilidade até 2032 por abuso de poder político e econômico e uso indevido das redes sociais na campanha.
No caso de Nikolas, a Fórum não conseguiu comprovar até o momento se houve campeonatos com prêmios em dinheiro. No entanto, em janeiro, a presidenta do TSE, ministra Cármen Lúcia afirmou que a manipulação de algoritmos, como nesse caso, será considerada crime eleitoral.
“Nenhuma dúvida que as tecnologias, que não são boas ou ruins por si, mas pelo abuso e pelo mau uso que se faz delas, podem levar à contaminação de eleições, podem levar à contaminação do voto pela captura da vontade livre do eleitor com as mentiras tecnologicamente divulgadas”, afirmou a ministra em 27 de janeiro.
Gabriel Schmidt e o recrutamento
O rosto público desse recrutamento é Gabriel Schmidt. Foi ele quem foi às redes para arregimentar o “time oficial de conteúdo” de Nikolas, fixando a meta de 1.000 clipadores e 2,5 bilhões de visualizações em quatro dias. O vocabulário usado não era o da militância espontânea, mas o de uma operação de performance: escala, metas e hierarquia.
Reprodução Instagram
Em seus perfis, Schmidt se apresenta como diretor de marketing político de Pablo Marçal e ostenta a marca de “+15 bilhões de views”. Ele surge, assim, não como apoiador ocasional, mas como operador voltado a transformar recortes de discursos em avalanche digital.
Em vídeo divulgado em seu perfil no Instagram, Schmidt é elogiado por Nahuel Medina, que protagonizou troca de socos como assessor de Marçal nas eleições paulistanas. Medina trata o colega como “nosso coordenador do time da marcha ao vivo”. Em seu perfil, ele também usa um vídeo da candidatura de Marçal para vender seu produto.
Dentro do grupo de WhatsApp, cujos áudios foram obtidos pela Fórum, Schmidt ditava o fluxo de trabalho: os vídeos brutos seriam distribuídos aos editores, cortados e, em seguida, submetidos ao crivo de três pessoas responsáveis pela aprovação final. O controle da circulação do conteúdo era centralizado.
O grupo de WhatsApp, onde acontecia o comando central do exército de clipadores de Nikolas, foi criado em agosto de 2024, no início das campanhas municipais, quando Marçal se colocou como principal aposta da ultradireita radical na disputa à prefeitura de São Paulo.
O elo com o caso Marçal em São Paulo
Enquanto Schmidt operava na linha de frente, a presença de Jefferson Rodrigo Zantut Kerber no topo da hierarquia do grupo torna a operação politicamente mais sensível. Identificado como um dos administradores da comunidade de clipadores de Nikolas, Kerber já foi citado no noticiário durante a campanha de Marçal à prefeitura de São Paulo, no contexto das revelações sobre pagamentos por cortes e intermediação financeira para a disseminação de vídeos.
Sua atuação no núcleo do “Acorda Brasil” sugere reaproveitamento de métodos que já foram alvo de forte escrutínio público e eleitoral. Com Kerber entre os administradores, a edição de vídeos deixa de aparecer apenas como ativismo digital e passa a integrar uma engrenagem com histórico de questionamentos sobre pagamentos paralelos e financiamento não transparente.
A guerra cultural e os gabinetes
O comando do grupo também abrigava figuras da guerra cultural bolsonarista. Outro administrador identificado é Kawan Menezes Ponte Miranda, ex-assessor parlamentar que virou alvo do Ministério Público após instalar uma placa com a imagem de um veado em uma faixa de pedestres colorida no Ceará, em episódio denunciado como homofóbico.
Reprodução Instagram Kawan
Além dele, a reportagem encontrou, entre os integrantes da gestão do grupo de WhatsApp, um contato ligado à equipe da deputada estadual Débora Menezes (PL-AM). A presença mostra que a rede de influência alcançava também pessoas conectadas a gabinetes de políticos com mandato ativo.
A nova propaganda terceirizada
Mais do que um evento físico, a marcha de Nikolas Ferreira serviu também como plataforma para uma engrenagem terceirizada de propaganda. Os dados levantados pela reportagem mostram que lideranças da extrema direita vêm substituindo parte do alcance orgânico por operadores especializados em escalar conteúdo e explorar os mecanismos de recomendação das plataformas.
A operação que inundou a internet com cortes de Nikolas Ferreira não foi movida apenas por eleitores munidos de celulares. Ela foi desenhada, organizada e supervisionada nos bastidores por operadores forjados nas táticas de cortes, viralização e guerra digital associadas ao universo de Pablo Marçal.
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