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CPMI do INSS rejeita todas as oitivas da Igreja da Lagoinha mesmo após sucessivos requerimentos

Igreja Lagoinha, que recebeu R$ 3,6 milhões de Carlos Viana. Foto: reprodução

Os dados reunidos nos requerimentos apresentados à CPMI do INSS mostram um padrão claro e controverso. Foram protocolados diversos pedidos para ouvir representantes ligados à Igreja da Lagoinha, incluindo o pastor André Valadão e estruturas associadas como o Clava Forte Bank. Apesar da quantidade de elementos citados nos relatórios, todas as solicitações de oitiva foram rejeitadas.

A repetição das negativas chama atenção porque ocorre justamente em um dos núcleos mais mencionados nos documentos de inteligência financeira. Nenhum dos pedidos avançou, mesmo com a insistência dos parlamentares responsáveis pelos requerimentos.

Os elementos que motivaram os pedidos de oitiva

Os requerimentos têm como base registros do COAF e apontamentos da Controladoria-Geral da União que identificaram movimentações consideradas atípicas e compatíveis com possíveis práticas de lavagem de dinheiro.

No caso da Igreja da Lagoinha, os dados indicam proximidade com os chamados “Golden Boys” (Felipe Macedo, Américo Monte e Anderson Cordeiro) apontados como centrais nas movimentações suspeitas.

Também é destacado que, em 2024, a igreja recebeu patrocínio de Felipe Macedo para um evento de Réveillon realizado no Allianz Parque, período descrito nos documentos como o auge das irregularidades envolvendo descontos indevidos.

Outro ponto relevante envolve o Clava Forte Bank S/A, ligado a André Valadão. Há questionamentos sobre o possível papel da instituição como intermediadora ou receptora de valores oriundos das fraudes investigadas. O fato de o site da empresa ter saído do ar no mesmo dia da prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, também foi incluído nos elementos apresentados.

Essas conexões fundamentaram os requerimentos que pediam esclarecimentos diretos por meio de oitivas.

André Valadão, líder da Lagoinha, e Nikolas Ferreira em avião de Daniel Vorcaro. Foto: reprodução

Um padrão diferente do restante da investigação

Enquanto os pedidos relacionados à Igreja da Lagoinha foram barrados integralmente, outros alvos com base em movimentações financeiras semelhantes foram incluídos nas investigações e tiveram requerimentos aceitos.

Os dados mostram, por exemplo, que a Sete Church recebeu R$ 370.338,00 de Anderson Cordeiro e mais R$ 124.000,00 de Américo Monte. A Adoração Church movimentou mais de R$ 5 milhões em sete meses. A Igreja Campo de Anotote recebeu R$ 200.000,00 antes mesmo de sua formalização oficial. Já o Ministério do Renovo aparece com movimentações superiores a R$ 500 mil, incompatíveis com a renda declarada de seu dirigente.

Mesmo diante desse conjunto amplo de informações, o caso da Lagoinha seguiu um caminho distinto dentro da comissão.

As justificativas para as rejeições

As negativas às oitivas foram atribuídas, nos debates internos, à ausência de provas conclusivas e à necessidade de priorização de outros alvos. Também foi mencionado que os requerimentos apontariam indícios, mas não elementos suficientes para convocação imediata.

No entanto, os próprios documentos utilizados nos pedidos afirmam que, considerando a natureza das atividades, vínculos operacionais e enquadramento societário, é provável que as movimentações identificadas configurem canais de circulação de valores desviados do esquema do INSS.

Essa avaliação técnica foi um dos principais argumentos para a apresentação das solicitações.

O banqueiro Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel, listado como presidente da Igreja Lagoinha Belvedere na Receita Federal. Foto: reprodução

O pano de fundo financeiro das suspeitas

As investigações se conectam a falhas estruturais identificadas pela CGU no sistema de crédito consignado vinculado ao Auxílio Brasil em 2022.

O relatório aponta que mais de 3,6 milhões de contratos foram firmados em poucos meses, com movimentação de R$ 7,6 bilhões, principalmente pela Caixa. Também foram identificadas falhas na integração entre Dataprev e sistema bancário, erros na averbação de parcelas e descontos indevidos em benefícios de famílias vulneráveis.

A ausência de estudos técnicos para definição de juros e limites de comprometimento da renda agravou o cenário. Em alguns casos, os descontos chegaram a comprometer até 40% do benefício.

O ponto central da controvérsia

Dentro desse contexto, a rejeição total das oitivas ligadas à Igreja da Lagoinha se tornou um dos principais pontos de tensão na CPMI.

Os dados mostram que não se trata de um pedido isolado recusado, mas de uma sequência completa de negativas. Todas as tentativas de ouvir representantes da igreja foram barradas, mesmo com a apresentação de relatórios, registros financeiros e conexões diretas com investigados.

O resultado é que um dos núcleos mais citados nos requerimentos permanece sem esclarecimentos formais na comissão, enquanto outras frentes avançam normalmente.

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