POLÍTICA

Como abordagem a caminhão em 2023 levou à operação bilionária contra o PCC

Agentes da Polícia federal, em conjunto com as receitas federal e estadual fizeram buscas e apreensões em endereços na Faria Lima. Foto: Werther Santana/Estadão

Uma abordagem de rotina da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em maio de 2023 foi o ponto de partida para desmantelar um esquema bilionário de adulteração de combustíveis ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital). Na ocasião, agentes interceptaram um caminhão carregado com metanol, conduzido por Renan Diego Inocência da Silva.

A carga, destinada oficialmente a empresas químicas, na verdade abasteceria postos da Grande São Paulo. O episódio levou ao aprofundamento de investigações que culminariam na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2024, e a análise de celulares apreendidos em operações anteriores, como a chamada “Boyle”, confirmou que a quadrilha desviava metanol em grande escala.

O produto, importado e de uso restrito, era usado para adulterar gasolina e etanol vendidos diretamente ao consumidor. Os investigadores descobriram que, em alguns postos, o nível de metanol chegava a 50% do combustível oferecido nas bombas, quando o limite permitido pela ANP é de apenas 0,5%.

Provas documentais reforçaram o esquema: centenas de tickets de pesagem emitidos pela empresa Cattalini, no Paraná, mostravam carregamentos destinados a indústrias químicas, mas os caminhões eram desviados para postos da capital paulista. Conversas interceptadas revelaram motoristas descarregando o produto em locais em desacordo com as notas fiscais.

Para dar aparência de legalidade, distribuidoras emitiam notas fiscais “quentes” simulando o transporte de álcool ou gasolina. Estima-se que mais de 10 milhões de litros de metanol tenham sido desviados entre 2020 e 2024.

Homem abastece carro em posto de gasolina. Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil

Esse núcleo inicial revelou não só a adulteração dos combustíveis, mas também as conexões financeiras que levaram a Receita Federal e o Ministério Público a identificar o envolvimento de fundos de investimento e fintechs.

O avanço das investigações mostrou como o PCC se infiltrou na economia formal. A Operação Carbono Oculto atingiu 350 alvos, sendo 42 deles na Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. Empresas do setor sucroalcooleiro e formuladoras de combustíveis eram usadas para importar produtos químicos com dinheiro ilícito e movimentar recursos da facção.

Entre 2020 e 2024, segundo a Receita e o Ministério Público de São Paulo, empresas ligadas ao PCC importaram R$ 10 bilhões em nafta, hidrocarbonetos e diesel. O esquema rendeu R$ 8,67 bilhões em impostos sonegados, além da adulteração sistemática de combustíveis distribuídos ao consumidor final.

A Carbono Oculto também revelou como fintechs e gestoras ajudaram a ocultar recursos, lavando dinheiro por meio de fundos de investimento. A utilização de instituições financeiras da Faria Lima deu sofisticação ao esquema e ampliou a capacidade da facção de integrar recursos ilícitos à economia formal.

Além dos combustíveis, os investigadores identificaram ramificações do PCC em outros setores, como mercado imobiliário, mineração, transporte público, cigarros e comércio de bebidas. Essas atividades diversificam os negócios do crime organizado e criam uma fachada de legalidade que dificulta o rastreamento dos recursos ilícitos.

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