AMÉRICA LATINAMUNDO

As veias abertas da América Latina voltam a sangrar

Incêndio em Fuerte Tiuna, maior complexo militar da Venezuela, após explosões em Caracas na madrugada de 3 janeiro de 2026

Por Edward Magro

Nada mais excessivamente esperançoso do que imaginar que a política internacional obedece a algum código de boas maneiras, uma espécie de manual de etiqueta para Estados supostamente civilizados. Antes que o velho imaginário hollywoodiano apresente ao mundo sua versão épica da invasão da Venezuela, com heróis inflados e explicações glamourosas, vale uma pausa breve para distinguir o que ainda resiste à ficção. Não por devoção ao factual, mas por um gesto simples de consideração pela inteligência alheia — ao menos pela nossa, que ainda tenta não se deixar seduzir pelo espetáculo.

A história latino-americana é fértil em episódios cuidadosamente embalados para o consumo externo. Sempre que um interesse estratégico estadunidense perde a paciência, surge depressa uma explicação conveniente, coberta por um verniz moral suficientemente sedutor para conquistar corações e mentes pouco atentas. Desta vez, o expediente escolhido foi o clássico “combate às drogas”, expressão que possui a estranha habilidade de suspender o pensamento crítico. Afinal, quem ousaria contestar uma cruzada contra o tráfico? É uma fórmula confortável: basta evocá-la para que se produza uma aparência de virtude, mesmo que funcione apenas como cortina para ações que passam longe dela.

Mas basta um instante de atenção para que o descompasso entre o slogan e os fatos se revele. A invasão nada teve a ver com narcotráfico. O que a impulsionou foi o velho motor da política externa estadunidense: a necessidade de preservar sua posição central num tabuleiro global cada vez mais disputado, mantendo intacta a hegemonia construída após o desaparecimento da União Soviética, seu último contraponto relevante. E, como de hábito, são os interesses econômicos — públicos e privados — que definem o rumo, numa simbiose entre Estado e grandes corporações energéticas que raramente encontra espaço nos pronunciamentos oficiais.

A Venezuela, com reservas petrolíferas de escala excepcional, tornou-se peça central nesse tabuleiro. O país abriga algo em torno de 303 bilhões de barris, e boa parte desse petróleo se ajusta com rara precisão ao parque de refinarias estadunidenses na Costa do Golfo — detalhe que dificilmente escaparia a quem conduz a política energética de Washington. Não é coincidência, mas oportunidade. Antes de 2019, os Estados Unidos eram os principais compradores do petróleo venezuelano; em 2023, Pequim absorveu cerca de 68% de todo o petróleo exportado pelo país. As sanções impostas por Washington, porém, empurraram Caracas para outra rota: a China. Para contornar o bloqueio, o governo venezuelano passou a usar o petróleo como garantia de empréstimos — quase 50 bilhões de dólares em uma década — mecanismo pragmático que assegurava aos chineses fornecimento por muitos anos. Na prática, parte relevante do subsolo venezuelano foi penhorada, irritando profundamente os estrategistas estadunidenses, que viram um ativo estratégico escapar de sua órbita.

É nesse ponto que a narrativa se torna mais nítida. Ao remover Maduro, a invasão estadunidense não se restringe ao presente: busca redesenhar o futuro. Um governo tutelado certamente revisaria a relação com a China, com o objetivo de desfazer a moratória lastreada no subsolo petrolífero oferecido como garantia. A disputa, portanto, está longe de ser apenas territorial. É estratégica, financeira e prenuncia efeitos que ultrapassam em muito o ato militar que lhe deu origem.

Além disso, a invasão da Venezuela não é o desfecho da operação — é apenas o prólogo. No horizonte imediato está a Guiana Essequiba, região que desperta interesse pelo motivo mais previsível de todos: petróleo. E a história continental é pedagógica: quando um território estratégico passa a ser administrável sob tutela estrangeira, as áreas vizinhas entram automaticamente no radar das ambições. Guatemala, Chile, Haiti, Panamá — a lista de intervenções norte-americanas é longa demais para ser tratada como coincidência. A América Latina sabe — pois vivenciou isso ao longo de toda a sua história — que seus recursos costumam viajar muito mais rápido do que sua soberania.

Trump fala sobre ataque à Venezuela — Foto: Reuters/Jonathan Ernst

Sobre a invasão em si, antes que Hollywood povoe o imaginário popular com uma epopeia do bem contra o mal, é preciso afirmar o óbvio: nada disso teria ocorrido sem colaboração interna. A propaganda nos vendeu, durante todo o dia de hoje, a cena fantástica de helicópteros estadunidenses surgindo do nada, entrando no espaço aéreo venezuelano, localizando o presidente com precisão absoluta e concluindo a captura sem resistência. Segundo Donald Trump, o sequestro de Maduro e sua esposa durou exatos 48 segundos. Essa narrativa não se sustenta, nem mesmo nos 48 trumpianos segundos. O episódio só foi possível porque setores do próprio “exército bolivariano” forneceram a chave do recinto. Coordenadas, acessos, rotas de deslocamento — tudo indica que a entrega veio de dentro. Parte da cúpula militar traiu Maduro e, com ele, a própria Venezuela. A história latino-americana conhece bem esse roteiro, no qual frações das Forças Armadas se veem mais vinculadas a Washington do que ao país que deveriam defender. Lamentavelmente, o Brasil, como sabemos, não é exceção.

O que ocorre hoje em Caracas guarda, de fato, uma familiaridade desconfortável com o golpe dado por Michel Temer. Dilma Rousseff teve seu mandato legítimo surrupiado por interesses subterrâneos ligados à entrega da Petrobras. A América Latina parece condenada a protagonizar versões renovadas da mesma história: governos eleitos removidos quando se tornam obstáculos, riquezas estratégicas tratadas como prêmios de consolação, elites locais brindando discretamente a cada entrega, enquanto a população paga a conta. Nesse sentido, Dilma e Maduro são vítimas dos subsolos de seus países. A metáfora de Galeano não envelheceu — apenas ganhou novos instrumentos de extração. A Venezuela vive agora o mesmo capítulo que o Brasil atravessou no ciclo Temer–Bolsonaro.

Por isso, qualquer tentativa de minimizar a gravidade do que ocorreu é puro autoengano. A invasão, vendida como missão moralizadora, inaugura uma sequência previsível de desdobramentos. Cada golpe bem-sucedido abre caminho para o próximo. Cada traição institucional prepara a seguinte. A América Latina, quando esquece disso, torna-se presa fácil.

Se há um recado urgente dado por essa invasão, é o de recusar a indiferença. Não se trata de Maduro; é a Venezuela — e não um governo em particular — que está sendo punida pelo que deveria fortalecê-la: suas riquezas naturais. E nós, se não estivermos atentos, veremos esse roteiro reaparecer dentro de nossas próprias fronteiras. Uma região que não defende sua soberania logo descobre que outros o farão em seu lugar — e, como sempre, jamais em seu benefício.

E é exatamente aqui que o momento exige mais do que observação: exige posicionamento e denúncia. Porque o que se decide agora em Caracas não é apenas o futuro da Venezuela, mas a linha que separa a autodeterminação latino-americana da servidão resignada tão desejada pelas nossas elites. Assistir calado é consentir. Aceitar a normalização de um crime é abrir as portas para sua repetição. A América Latina sangra porque a deixam sangrar. E, se permanecer imóvel, descobrirá cedo demais que o que está em disputa não é Caracas, mas o futuro inteiro do continente — um futuro que, se abandonado, será escrito por mãos alheias e jamais em nosso benefício.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo