
Em 2021, a Prevent Senior tomou as manchetes durante a pandemia da Covid-19 por crimes contra sues clientes e agora, quatro anos depois, nenhum dirigente da operadora de saúde foi responsabilizado judicialmente. Enquanto familiares de vítimas aguardam um desfecho, alguns dos médicos que denunciaram as práticas irregulares enfrentam processos e risco de perder o registro profissional.
“A indignação ainda me consome. É uma revolta amarga”, afirmou Walter Correa de Souza Neto, um dos principais denunciantes do caso, hoje alvo de processo aberto pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em entrevista ao G1. “O processo é surreal, descabido e sem base legal”.
Ao mesmo tempo, familiares de pacientes relatam frustração com a demora. “Nossa vida parou, a nossa família foi destruída, perdemos a nossa matriarca, peça-chave da família”, disse Kátia Castilho, que acusa a Prevent de ter submetido sua mãe a tratamentos ilegais.
As acusações contra a operadora surgiram em 2021, durante reportagens da GloboNews, TV Globo e G1, e foram incorporadas à CPI da Covid no Senado. Médicos denunciaram a prescrição em massa do chamado “kit Covid’, testes de medicamentos sem autorização dos pacientes, omissão de mortes em estudos sobre cloroquina, além de pressão sistemática para prescrever drogas ineficazes.
Durante o escândalo, popularizou-se a ordem da empresa aos médicos considerarem óbitos como baixa, uma vez que pacientes mortos abririam espaço para novos pacientes ficarem internados, aumentando os lucros do Hospital Sancta Maggiore, administrado pela operadora.
A CPI pediu o indiciamento de 12 médicos e dirigentes, acusados de crimes como perigo à saúde, falsidade ideológica, omissão de notificação de doença e crime contra a humanidade. A Procuradoria-Geral da República, na época chefiada por Augusto Aras, não abriu investigação.
Em setembro de 2021, a empresa assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, comprometendo-se a não usar medicamentos ineficazes e admitindo que o estudo sobre cloroquina não tinha validade científica. Mesmo assim, a Câmara Municipal de São Paulo abriu CPI própria e recomendou o indiciamento de 20 médicos e dirigentes por crimes semelhantes, além de homicídio e tentativa de homicídio.
Na esfera criminal, o Ministério Público de São Paulo denunciou em junho de 2024 dez dirigentes da operadora, entre eles Eduardo e Fernando Parrillo, donos da Prevent, pelos crimes de homicídio culposo, omissão de notificação de doença e perigo à saúde. O caso segue sob segredo de Justiça, mas enfrenta atrasos por dificuldades em notificar os réus.

“Acho isso terrível, em plena era digital, ter que esperar encontrar a pessoa no endereço para ser intimado. Isso tudo me leva a crer que estão querendo ganhar tempo para que o processo prescreva, disse Kátia Castilho, que perdeu a mãe em 2021 após uso de flutamida, remédio contra-indicado para pacientes com problemas hepáticos.
Os laudos periciais apontaram que em pelo menos sete casos a conduta da operadora contribuiu diretamente para a morte de pacientes, caracterizando homicídio culposo. Outras irregularidades foram registradas, mas sem vínculo causal comprovado com os óbitos.
Paralelamente, o Ministério Público ajuizou uma ação trabalhista cobrando R$ 940 milhões por dano moral coletivo, após colher 57 depoimentos e reunir 37 mil documentos. A investigação apontou assédio contra médicos, falta de vacinação obrigatória e permissão para que funcionários infectados com Covid-19 trabalhassem.
Enquanto isso, médicos denunciantes, como Walter Correa, enfrentam processos movidos pela própria Prevent. Ele é acusado de vazar o prontuário do toxicologista Anthony Wong, que morreu de Covid-19 após ser tratado com cloroquina e ivermectina.
Walter nega a acusação e lembra que o Cremesp arquivou a denúncia por unanimidade em 2023, mas o CFM determinou a abertura de novo processo. “Não há nenhuma prova ou indício de qualquer infração da minha parte, como concluiu o Cremesp, mas o CFM determinou que a sindicância fosse convertida em processo, sem dar justificativa legal”, afirmou.
Famílias de vítimas ainda aguardam respostas. Andrea Rotta, viúva do empresário Fábio Senas, morto em 2021 após receber cloroquina contra-indicada ao seu quadro clínico, resume o sentimento: “Desejo que a justiça seja feita e que, parte dessa história, tenha um desfecho libertador para nós. O que mais quero é por minha liberdade psicológica e emocional”.
Já Luiz Cezar Oliveira, filho de Sueli Pereira, vítima em 2021, afirma que a espera se arrasta: “Vivemos em constante ansiedade. Meu pai e minha irmã oscilam entre esperança e desânimo. Sigo acreditando que a justiça virá”.