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A imprensa brasileira apoiou a ditadura militar de 1964? Historiador explica os veículos que colaboraram com os militares

“A grande imprensa foi, em geral, mais apoiadora da ditadura do que o contrário”

No marco dos 60 anos do golpe militar no Brasil, o historiador João Teófilo traz à tona uma questão controversa: a imprensa brasileira foi uma grande entusiasta do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu. Em uma entrevista à Revista Fórum, Teófilo afirma que “a grande imprensa foi, em geral, mais apoiadora da ditadura do que o contrário”.

Ao estudar a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), é comum abordar a censura à liberdade de expressão e à imprensa como uma das principais ferramentas do regime para se manter no poder. Embora seja amplamente conhecido o fato de que jornais e jornalistas foram censurados, perseguidos e torturados durante esse período, é incontestável que a maior parte da chamada “grande imprensa” apoiou ativamente a ditadura.

Mesmo veículos que foram alvos de censura, silenciando sobre as atrocidades cometidas pelos militares ou publicando matérias e editoriais elogiosos às medidas do governo dos anos de chumbo, também forneceram apoio material ao regime. Um exemplo notório é o caso da Folha de S. Paulo, que emprestou seus carros à Operação Bandeirante (Oban), um centro de investigações do Exército que combatia organizações de esquerda.

Para entender as relações entre imprensa e ditadura militar no Brasil, o historiador João Teófilo se dedicou a esse tema. Mestre em História Social pela PUC-SP e doutor pela UFMG, Teófilo é autor do livro “Nem tudo era censura: imprensa, Ceará e ditadura militar” (2019).

Em entrevista à Revista Fórum, ele explica como a censura ao jornalismo ocorria durante a ditadura e destaca quais eram os veículos mais perseguidos, analisando o papel de colaboração de setores da imprensa com o regime da época.

Censura e estratégias de controle

Durante a ditadura civil-militar, a imprensa, assim como rádio e televisão, sofreu ataques significativos. Além disso, manifestações artísticas, como teatro, cinema e música, também foram afetadas. A ditadura estava especialmente preocupada em defender a chamada moral e os costumes, restringindo a liberdade de expressão em diferentes áreas.

Embora a censura à imprensa não tenha sido estabelecida propriamente durante a ditadura, os militares aperfeiçoaram os ataques e os instrumentos censórios já existentes. A atividade censória variou em intensidade ao longo do período, mas foi praticada desde o início.

Uma das principais estratégias de controle foi a criação da Lei de Imprensa, em 1967, que criminalizou as publicações que faziam propaganda de processos de subversão da ordem política e social. Essa lei restringiu a liberdade de expressão de maneira geral. Posteriormente, o Ato Institucional nº 5 (AI-5), de 1968, permitiu uma atividade censória mais sistemática, instituindo a censura prévia.

Jornais como Tribuna da Imprensa, Pasquim e Opinião, que ofereciam maior resistência à ditadura, tiveram que conviver com a presença de censores em suas redações, acompanhando a atividade jornalística antes mesmo da publicação. Além disso, a censura também era realizada por meio de bilhetes com determinações sobre o que não poderia ser publicado, bem como por telefonemas para as redações dos jornais.

A imprensa alternativa e jornalistas independentes foram os mais perseguidos e censurados. Em 1970, por exemplo, a redação do Pasquim foi presa por publicar uma sátira do famoso quadro do imperador Dom Pedro I, “Às margens do Rio Ipiranga”. Durante esse período, muitos jornalistas foram perseguidos e alguns chegaram a serpresos, torturados e até mesmo assassinados, como o caso emblemático de Vladimir Herzog.

Colaboração da imprensa com a ditadura

No entanto, é importante destacar que nem todos os veículos de imprensa foram alvos de perseguição ou resistiram à ditadura. Pelo contrário, muitos veículos colaboraram ativamente com o regime militar. A chamada “grande imprensa” foi, em geral, mais apoiadora da ditadura do que o contrário, conforme afirma o historiador João Teófilo.

A imprensa não apenas silenciava sobre as atrocidades cometidas pelos militares, mas também publicava matérias e editoriais elogiosos às medidas do governo ditatorial. Além disso, alguns veículos forneciam apoio material, como o caso mencionado da Folha de S. Paulo, que emprestou seus carros à Operação Bandeirante.

Essa colaboração da imprensa com a ditadura pode ser explicada por diversos fatores. Um deles é o fato de que muitos proprietários e jornalistas compartilhavam da mesma visão ideológica dos militares, defendendo o combate ao comunismo e à chamada “ameaça vermelha”. Além disso, havia interesses econômicos e políticos envolvidos, já que o apoio ao regime garantia benefícios e proteção para esses veículos de imprensa.

A ditadura militar foi responsável por um controle rigoroso da imprensa, seja por meio de censura prévia ou por meio de intimidação e perseguição aos jornalistas. No entanto, é necessário reconhecer que muitos veículos de imprensa contribuíram ativamente para a manutenção do regime autoritário, utilizando sua influência e alcance para legitimar as ações dos militares.

A importância do estudo da relação entre imprensa e ditadura

O estudo da relação entre imprensa e ditadura é fundamental para compreendermos os mecanismos de poder e controle utilizados durante esse período sombrio da história brasileira. Entender como a imprensa foi utilizada como ferramenta de legitimação e apoio ao regime militar nos leva a refletir sobre o papel da mídia na sociedade e os possíveis abusos de poder que podem ocorrer quando não há uma imprensa livre e independente.

Além disso, ao analisarmos a colaboração da imprensa com a ditadura, podemos também questionar os discursos e narrativas presentes na mídia atualmente. A imprensa tem um papel crucial na promoção da democracia e na defesa dos direitos humanos, e é importante estarmos atentos a possíveis interesses e influências que possam comprometer sua independência e imparcialidade.

Portanto, o estudo realizado pelo historiador João Teófilo e outros pesquisadores sobre a relação entre imprensa e ditadura no Brasil é de extrema relevância para a compreensão da história e para uma análise crítica da imprensa contemporânea. É necessário que estejamos sempre atentos e vigilantes em relação à liberdade de imprensa e ao papel da mídia na construção de uma sociedade justa e democrática.

Com Revista Fórum

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