POLÍTICA

Quem era o artista negro assassinado por entrar com cachorro em mercado

Felipe de Moraes foi assassinado dentro de supermercado em Santo André. Foto: reprodução

Felipe de Moraes de Oliveira, homem negro morto a tiros na última terça-feira (26) dentro do supermercado Loyola, em Santo André, tinha 29 anos e construía sua vida a partir da arte, da capoeira e da cultura periférica. Artesão e artista multicultural, usava seu perfil no Instagram (@artednego) para mostrar suas criações e seu estilo de vida, marcado por viagens de “mochilão” para conhecer as belezas naturais do Brasil, skate e encontros culturais. Entre suas paixões estava também a capoeira, que ele praticava regularmente. 

Em 2024, Felipe ganhou de presente de outro artista, o fotógrafo Ítalo Gomes, uma cachorra vira-lata chamada Zuri. O vínculo entre os dois foi imediato. “O melhor presente do ano”, escreveu Felipe nas redes sociais ao agradecer ao amigo. Zuri passou a acompanhá-lo em seu cotidiano, incluindo passeios e até as idas ao comércio do bairro. Foi ao lado dela que Felipe viveu seus últimos momentos, no episódio que chocou moradores do ABC Paulista.

Segundo testemunhas, o conflito começou porque ele entrou no estabelecimento acompanhado de sua cadela. As câmeras de segurança registraram a cena. Nas imagens, Felipe aparece segurando o animal no colo enquanto se aproxima do caixa.

Em seguida, iniciou-se uma discussão com um funcionário, que se aproximou dele e o empurrou. Para mostrar que não estava armado, Felipe ergueu a camiseta. Outro empregado tentou separar os dois, mas a briga continuou. Quando o jovem tentou chutar o funcionário, foi atingido por um disparo na barriga.

Mesmo ferido, Felipe conseguiu prender sua cadela e pedir ajuda em uma farmácia vizinha, na Rua Adriático. A Polícia Militar foi chamada, mas ele não resistiu ao ferimento.

Esposa lamenta morte

“Perdi meu marido, meu melhor amigo, e não posso aguentar que isso fique impune”, lamentou Evelyn Silva, esposa do artista, nas redes sociais, ao contar a rotina dele antes do assassinato.

“Felipe foi comprar pão e disse que voltava logo para tomarmos café antes de eu sair para trabalhar (…) Hoje Felipe acordou, pegou nosso cachorro e foi comprar pão sem se despedir de mim. Não pude abraçar e beijar ele antes de sair de casa, não pude ver o corpo do meu companheiro e não aguento saber que estão ferindo a imagem dele. Por favor, não deixem que mais um crime de racismo seja deturpado e que transforme a vítima em culpado. Eu sempre vou te amar”, escreveu.

O autor do disparo se entregou em uma delegacia de Santo André e foi preso em flagrante por homicídio. Segundo colegas de trabalho, o atirador era contratado como “controlador de acesso” do mercado, com a função de orientar clientes e auxiliar no estoque. Eles afirmaram desconhecer que ele portava arma.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou, em nota, que o funcionário “não possui qualquer vínculo com nenhuma força de segurança” e destacou que a arma usada no crime não foi entregue.

O supermercado Loyola, que seguiu funcionando nos dias seguintes, foi pichado com a frase: “+1 Assassinato. Justiça já”. Familiares da vítima afirmaram que Felipe foi alvo de racismo, uma vez que não havia placas ou avisos no mercado proibindo a entrada de animais. A família relatou ainda que o jovem havia ido ao local apenas para comprar pão e desistiu da compra antes da discussão.

O caso levou a Bancada Feminista do PSOL a protocolar um pedido no Ministério Público para que o órgão acompanhe as investigações. “Trata-se do racismo estrutural que faz com que jovens negros sejam mais frequentemente vítimas de crimes violentos”, afirma o documento.

A bancada solicitou ainda que a Justiça avalie o fechamento do supermercado. A direção do Loyola não se manifestou sobre o episódio até o momento.

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