
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao café brasileiro provocou uma disparada inédita nos preços do grão no mercado internacional. Como o Brasil é o maior produtor do mundo, o redirecionamento de cargas e renegociações impactou toda a cadeia, levando os futuros do arábica a saltarem quase 35% em agosto, a maior alta mensal desde 2014.
Segundo a coluna de Graciliano Rocha no UOL, o preço da libra passou de US$ 2,842 (cerca de R$ 15,4 mil) no início do mês para US$ 3,757 (cerca de R$ 20,4 mil) no fechamento de ontem, mesmo em plena colheita brasileira, quando a oferta deveria pressionar os preços para baixo.
Segundo a Cooxupé (Cooperativa de Guaxupé), a colheita no sul de Minas já alcançou 91% das lavouras, mas, apesar da oferta elevada, os preços internos também subiram, com a saca de arábica fechando a R$ 2.390,00, de acordo com a Minasul.
A incerteza provocada pela tarifa gerou corrida por lotes ainda isentos e encareceu o frete, fatores que aumentaram os custos para toda a cadeia. Nos EUA, gigantes como J.M. Smucker, Keurig Dr Pepper e Westrock Coffee já sinalizam repasses de preços ao consumidor no inverno do hemisfério Norte.
Para Ricardo Schneider, presidente do Centro de Comércio do Café de Minas, a alta também é explicada por riscos climáticos, relatos de safra abaixo do esperado e insegurança quanto à próxima colheita.
“Se o industrial americano vê risco de não conseguir café brasileiro nos próximos seis meses, ele se protege comprando contratos na Bolsa de Nova York”, explicou. Essa busca por proteção ampliou a pressão sobre as cotações internacionais.

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estimou a safra de 2024 em 54,2 milhões de sacas. Apesar disso, produtores e cooperativas em Minas registram ligeira queda de rendimento em relação ao ano anterior, o que reforça a percepção de oferta mais apertada.
Segundo Schneider, o fluxo de comercialização segue, mas contratos de exportação estão mais curtos e embarques para os EUA têm sido adiados ou renegociados devido à sobretaxa.
Na prática, o tarifaço reduziu a competitividade do café brasileiro, estimulou compras de origens alternativas como Colômbia e América Central e valorizou lotes que chegarem aos EUA antes de 5 de outubro, isentos da taxa.
O redirecionamento de cargas para Europa e Ásia também ganhou força. “Se houvesse certeza de que a regra é definitiva, o mercado se ajustaria. Mas a incerteza é sempre ruim”, destacou.
O impacto é considerado inflacionário para os EUA, já que 30% do café verde importado pelo país vem do Brasil. Como o grão entra quase totalmente como matéria-prima para torrefação local, a tarifa não cumpre objetivo de proteger empregos industriais. “O café brasileiro é vital para os blends vendidos no varejo americano”, ressaltou Schneider.
A comparação com o suco de laranja mostra contradições da política de tarifas. Enquanto o produto foi poupado, o café sofreu a sobretaxa. Segundo Schneider, a diferença está na força de atuação dos exportadores e na urgência do mercado de sucos, mais concentrado e perecível.
No café, o setor também enviou informações sobre impacto, mas ainda não houve avanço diplomático. A grande dúvida agora é quem dará o primeiro passo: se o governo brasileiro irá negociar diretamente ou se o presidente estadunidense recuará diante da pressão inflacionária.
“Já vemos comentários sobre encarecimento do café, mas não há sinalização de mudança até agora”, afirmou Schneider.