
Promotores do Ministério Público de São Paulo (MPSP) afirmam que o Brasil se transformou em um “paraíso fiscal interno” para o crime organizado devido à proliferação de fintechs, fortalecidas por fake news divulgadas pelo deputado Nikolas Ferreira (PL), que oferecem o serviço de “conta bolsão”.
O mecanismo de “conta bolsão” concentra em uma única conta bancária o dinheiro de diversos clientes, dificultando bloqueios judiciais e permitindo que valores ilícitos circulem sem rastreamento.
“Quando você cria um vácuo no Estado, você permite a criação de um paraíso fiscal dentro do Estado brasileiro, esse mecanismo passa todo tipo de dinheiro, de todas as vertentes criminosas”, afirmou o promotor João Paulo Gabriel, do Gaeco.
A percepção foi reforçada pelo secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, que apontou o avanço do crime organizado no sistema financeiro.
“No momento em que as fintechs não têm obrigações de transparência em relação, por exemplo, à Receita Federal, o que tem acontecido? Nós não temos informação de quem é aquele titular do dinheiro. A fintech não tem agência, não é bancária. Como é que o dinheiro entra ali?”, questionou.
Segundo ele, os recursos eram transferidos em cadeia para fundos de investimento, muitas vezes com um único cotista, o que reforçava as camadas de ocultação.
Fake news de Nikolas ajudou o PCC a lavar dinheiro
A fake news divulgada por Nikolas Ferreira ajudou a manter o terreno fértil para o PCC operar. Em janeiro, o deputado bolsonarista publicou um vídeo que ultrapassou 200 milhões de visualizações, afirmando falsamente que uma portaria da Receita Federal criaria uma “taxação do Pix”.
My video exposing Lula’s government has reached more than 145 million views on Instagram, one of the most watched political videos in history. It’s now on @elonmusk ‘s 𝕏. Brazil is not theirs, it’s ours. pic.twitter.com/rZJA3TozMV
— Nikolas Ferreira (@nikolas_dm) January 15, 2025
A medida, na realidade, previa apenas o monitoramento de transações digitais acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e R$ 15 mil para empresas, justamente para combater lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Pressionado pela onda de desinformação, o governo recuou e revogou a norma.
“Publicamos essa instrução em setembro do ano passado, para valer a partir de janeiro. O que aconteceu em janeiro todos nós sabemos. A Receita Federal recebeu o maior ataque da história dela, de mentiras, de fake news, dizendo mentirosamente que aquela instrução normativa tratava de tributação de meios de pagamento”, disse Barreirinhas.
Segundo o secretário, o recuo abriu espaço para que o crime organizado ampliasse suas operações financeiras. “As operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras, com essas fake news”, afirmou.
⏯️ PCC: Fake News sobre Pix ajudou o crime organizado, diz secretário da Receita após operação
Segundo a investigação, organização criminosa usava fintechs para lavar dinheiro obtido com atividades ilícitas.
“Temos que voltar a discutir essa regulamentação”, afirmou Robinson… pic.twitter.com/LhrQ8Lugu3
— Metrópoles (@Metropoles) August 28, 2025
O “banco paralelo” do PCC
As investigações da Operação Carbono Oculto mostraram que o esquema de adulteração de combustíveis operava com apoio da BK Bank, fintech descrita como um verdadeiro “banco paralelo”. A instituição centralizava movimentações de empresas de fachada e recebia depósitos em espécie, algo considerado atípico para o setor.
Entre 2022 e 2023, foram registrados mais de 10,9 mil depósitos em dinheiro vivo, somando R$ 61 milhões. Além da fintech, pelo menos 40 fundos de investimento, com patrimônio superior a R$ 30 bilhões, foram usados para blindar o patrimônio e ocultar a movimentação de recursos ilícitos.