POLÍTICA

Lula se reúne com Trump hoje na Casa Branca e pode destravar acordos sobre minerais e tarifaço

Lula e Donald Trump durante reunião na Malásia. Foto: Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será recebido por Donald Trump nesta quinta-feira (7), na Casa Branca, em Washington, em uma reunião de trabalho aguardada há meses pelo Palácio do Planalto. A viagem ocorre em um momento de pressão interna sobre Lula, após a derrota no Senado com a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), e pode ser usada pelo governo como tentativa de mostrar força política, prestígio internacional e capacidade de diálogo com a Casa Branca.

O encontro foi marcado depois de uma conversa telefônica considerada “amistosa” entre os dois presidentes. Lula viajou aos Estados Unidos especialmente para a reunião e não tem outra agenda prevista fora da Casa Branca. A comitiva inclui os ministros Mauro Vieira, Wellington César Lima e Silva, Dario Durigan, Márcio Elias Rosa e Alexandre Silveira, além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Entre as pautas de interesse do petista estão:

Tarifaço e relação comercial

O tarifaço será um dos temas centrais da conversa. Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a tarifa de 50% imposta por Trump sobre produtos brasileiros, mas o governo estadunidense manteve investigações contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.

Essa apuração avalia supostas práticas comerciais desleais e cita temas como Pix, etanol, produtos falsificados em comércio popular, redes sociais estadunidenses, desmatamento ilegal, corrupção e acesso ao mercado brasileiro. Para Lula, evitar a volta de sobretaxas é essencial para estabilizar a relação bilateral e proteger setores exportadores em ano eleitoral.

O governo brasileiro vê a reunião como uma chance de destravar o diálogo depois de um período de atritos. A avaliação no Planalto é que o encontro pode ser mais um ponto de partida para negociações futuras do que uma reunião com acordos imediatos.

Donald Trump anunciando o tarifaço. Foto: reprodução

Pix e soberania digital

O Pix deve ser tratado dentro da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos. Autoridades estadunidenses avaliam que o sistema brasileiro pode representar uma desvantagem para empresas de meios de pagamento dos EUA, como bandeiras de cartões.

O governo brasileiro rejeita essa leitura e afirma que o Pix não discrimina empresas estrangeiras. Lula tem usado o tema como símbolo de soberania nacional. Em evento recente, disse que o “PIX é do Brasil” e criticou a investigação aberta por Washington.

A importância desse ponto está no impacto político e econômico do sistema. O Pix se tornou um instrumento massivo de pagamento no Brasil e qualquer tentativa de pressão externa sobre seu funcionamento tende a ser explorada pelo governo como defesa da autonomia brasileira.

Crime organizado e narcotráfico

Outro tema prioritário será a cooperação contra o crime organizado. Lula propôs a Trump, em conversa anterior, uma parceria entre Brasil e Estados Unidos para combater lavagem de dinheiro, tráfico internacional de armas e fluxos financeiros de facções.

O governo brasileiro deve apresentar a Trump uma estratégia de enfrentamento ao crime organizado, incluindo ações federais e estaduais para recuperar áreas dominadas por facções e endurecer regras no sistema prisional. A ideia é mostrar que o Brasil trata o tema como prioridade e que a cooperação bilateral pode ser mais eficaz do que medidas unilaterais.

A pauta também tem peso eleitoral. Segurança pública é um tema sensível para o governo e para a oposição. Um acordo com os EUA pode ser usado por Lula para tentar mostrar ação concreta contra facções, em um momento em que o bolsonarismo tenta explorar o assunto politicamente.

PCC, Comando Vermelho e risco à soberania

O governo Trump avalia classificar facções brasileiras, como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas. O Brasil tenta impedir esse enquadramento.

A preocupação do Planalto é que a classificação abra margem para ações unilaterais dos Estados Unidos, inclusive com justificativa de uso de força em casos extremos. Para o governo brasileiro, facções devem ser combatidas como organizações criminosas, não como grupos terroristas.

Lula deve argumentar que o Brasil quer cooperação, mas não aceita medidas que possam ameaçar a soberania nacional. Esse é um dos pontos mais delicados da reunião, porque envolve segurança, diplomacia e o limite da atuação estadunidense na América Latina.

Terras raras e minerais críticos

A exploração de minerais críticos e terras raras também deve entrar na pauta. O Brasil possui uma das maiores reservas do mundo desses recursos, usados em tecnologia, transição energética, defesa, inteligência artificial e indústria de ponta.

Os Estados Unidos querem reduzir a dependência da China nesse setor e convidaram o Brasil a participar de uma coalizão internacional voltada à mineração, refino e fornecimento desses minerais. O governo Lula, porém, não quer aderir a uma frente que garanta exclusividade a Washington ou isole Pequim.

A posição brasileira é aceitar parcerias, desde que haja controle nacional, transferência de tecnologia e processamento em território brasileiro. O objetivo é evitar que o país seja apenas fornecedor de matéria-prima e avance na cadeia produtiva.

O acordo firmado entre o governo de Goiás e os Estados Unidos para exploração de minerais críticos também pode ser citado. A avaliação do governo federal é que iniciativas estaduais isoladas não têm validade jurídica, já que o subsolo pertence à União.

Frascos de terras raras. Foto: reprodução

Venezuela, Cuba e Oriente Médio

A agenda geopolítica deve aparecer, embora não seja o foco principal. Lula e Trump têm divergências sobre Venezuela, Cuba e Irã. O presidente brasileiro criticou a intervenção militar estadunidense que resultou na prisão de Nicolás Maduro e defende soluções multilaterais, com participação de organismos internacionais.

A crise humanitária em Cuba também preocupa o Brasil, que teme instabilidade regional caso Washington adote uma postura mais dura contra Havana. No Oriente Médio, Lula tem criticado a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e defendido negociações por meio da ONU.

Esses temas são importantes porque podem testar o tom da reunião. Lula costuma dizer que Trump não foi eleito “imperador do mundo” e critica ações unilaterais. Ainda assim, a expectativa do governo é evitar confronto direto e manter a conversa concentrada em comércio e segurança.

Eleições de 2026 e bolsonarismo

Lula também tenta transformar a reunião em ativo político interno. O objetivo é obter, ainda que informalmente, uma sinalização de neutralidade de Trump em relação à eleição brasileira.

O Planalto teme que setores do governo estadunidense, especialmente no Departamento de Estado, adotem medidas ou discursos que favoreçam Flávio Bolsonaro (PL-RJ), possível adversário de Lula. Trump já demonstrou simpatia por Jair Bolsonaro em manifestações anteriores, mas ainda não declarou apoio a Flávio.

Para Lula, uma foto produtiva na Casa Branca pode ajudar a neutralizar o discurso de que a direita brasileira teria interlocução exclusiva com Trump. O encontro também serve para tentar virar a página da derrota de Messias no Senado e reforçar a imagem de liderança internacional do presidente.

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